"Ata do Simpósio Cister Hoje e Amanhã",

ocorrido na Casa de Nazaré, em São José do Rio Pardo,

de 25 a 30 de julho de 1999

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Dia 25 de julho (domingo):

 

Sexta-feira (23) chegou D. Agostinho Roberts, vindo de Roma. Durante todo o decorrer do domingo (25), foram chegando os participantes do Simpósio, que puderam, às 17h, participar das "Vésperas" com os monges e noviços. Após as orações foi oferecido um jantar festivo aos nossos irmãos. Às 19h foi aberto oficialmente o Simpósio, com a Missa Solene, que foi presidida por nosso abade D. Edmilson e concelebrada por todos os presbíteros então presentes. Durante a missa chegaram os irmãos de Campo do Tenente (PR), trazendo consigo diversos monges e monjas de vários mosteiros do mundo todo. Após a Missa foi oferecido o jantar àqueles que haviam recém-chegado de viagem. Enquanto isto, eram transportados os irmãos para a Casa de Nazaré, onde ocorreria o Simpósio, e que está situada na periferia da cidade. Já estavam todos os participantes presentes, exceto a Me. Agnes e sua companheira, ambas da Hungria, que devido a problemas com o visto, chegaram no meio da semana.

 

Dia 26 de julho (2ª feira): Memória de Sant’ Ana e São Joaquim

De acordo com o horário programado, levantamo-nos às 6h e rezamos o Ofício das Leituras e as "Laudes" às 6:30h. Em seguida tivemos o café e às 8:30h teve início a primeira conferência, que foi a de D. Denis Farkasfalvy, abade do mosteiro cisterciense N. Sra. de Dallas, dos Estados Unidos, que falou sobre a "Evolução da Ordem desde 1800 até hoje." Ao mesmo tempo que sua conferência foi interessante, foi também bastante pitoresca, devido ao seu bom humor, realçado por suas observações vividas em 37 anos de vida monástica. Foram-lhe propostas algumas perguntas: por D. Plácido, da Venezuela; Pe. Paulo, prior de nosso Mosteiro, e por Me. María Marcenaro, da Argentina.

Após um breve intervalo, tivemos a conferência de D. Francis Kline, da abadia de Mepkins, nos Estados Unidos, que discorreu sobre a "Integração da vida monástica com o meio que o envolve." Infelizmente sua conferência precisou ser parcialmente supressa, devido à falta de tempo. Ambas foram traduzidas pelo Pe. Bernardo, de Campo do Tenente.

Ao meio-dia tivemos a "Hora Sexta", seguida pelo almoço, e às 14h foi a vez do Pe. Luiz Alberto, do mosteiro de Itatinga, falar sobre o tema "Vacare Deo, soli Deo", que ressaltava, de modo especial, a necessidade de se preservar o carisma da Ordem nos dias de hoje, dentro do contexto vivido por cada mosteiro.

Então foi a vez da Ir. Marie Pascal, da abadia de Notre-Dame du Chambarand, da França, discorrer sobre "A nova antropologia e seu impacto nas jovens gerações e, conseqüentemente, nas novas vocações." Sua conferência causou certa polêmica, pois ao mesmo tempo em que se mostrava bastante otimista quanto às futuras gerações, reclamava uma certa mudança da Igreja no seu modo de receber estas gerações, gerando um paradoxo. Novamente, devido ao pouco tempo, não se pôde abrir um maior espaço às perguntas. Sua conferência foi traduzida pelo Pe. Luiz Alberto.

Após 15 minutos para um descanso, tivemos as "Vésperas" com missa, cuja leitura foi feita em espanhol pela Ir. Anna Robusti, do Chile, e que foi presidida por D. Joaquim, do mosteiro de São Bento, em São Paulo, que celebrava seu onomástico (inclusive durante a homilia, feita em espanhol, ele lembrava o fato de que, se Sant’ Ana foi sempre bem lembrada, São Joaquim, por sua vez, durante séculos permaneceu no esquecimento, como se condenado a um santo purgatório, só tornando a aparecer no século passado, sob o papado de Leão XIII, cujo nome no século era Joaquim).

Todo o dia se passou em paz , encerrando-se às 20:30h, com as "Completas".

 

Dia 27 de julho (3ª feira):

simpfot3.jpg (5140 bytes)A primeira conferência foi a do Pe. Bernardo, que sob o título de "O Vencedor", discorreu acerca da "busca de Deus na espiritualidade cisterciense", baseando-se (pasmem!) na ótica religiosa machadiana. O texto foi magistral, tecendo de modo perspicaz uma trama que, ao mesmo tempo que elaborada com simplicidade, era também profunda, prendendo a atenção de todos. Despertou a atenção de todos ao provar ab absurdo a existência da ação de Deus em nossas vidas através do agnosticismo – e por que não? – do ateísmo prático das personagens, cujas personalidades megalomaníacas tentavam substituir a onipotência divina por uma "onipotência pessoal", abstraindo-as da realidade e conduzindo-as à loucura. Muitos participantes fizeram-lhe perguntas, mas novamente o tempo, qual implacável inimigo, impediu que o debate prosseguisse.

Tivemos então a conferência do Pe. Santiago, que no lugar de D. Eduardo Gowland, do mosteiro de Azul, discorreu sobre "A tonalidade mariana na espiritualidade cisterciense", e de como Maria serve de exemplo para nós, ao se unir a Deus como esposa, e a Cristo como mãe.

À tarde foi a vez de D. Meinrado, abade em Jequitibá, falar sobre "a inculturação do carisma cisterciense em nosso país", tema que, apesar de ser alheio à vida dos participantes estrangeiros, nunca deixa de ser atual, já que o processo de inculturação em si ocorre em todos os mosteiros.

Então foi a vez do professor José Pereira ministrar sua conferência acerca dos "desafios teológicos e pastorais da Igreja no terceiro milênio" que, infelizmente, não pôde ser acompanhada por escrito devido à falta do texto.

Pe. Santiago fez um resume dos acontecimentos do dia.

 

Dia 28 de julho (4ª feira):

A primeira conferência foi a de Me. Martha Driscoll, da Indonésia, que discorreu sobre "a problemática existente entre monges e monjas e entre monges-irmãos e monges-sacerdotes". Não houve quem não se identificasse com o tema, pois todos, em maior ou menor grau, viviam-no em suas comunidades. Suscitou a mais longa salva de palmas desde o início do Simpósio.

Neste ínterim, a EPTV de São Carlos chegou e, num espaço de 20 min., entrevistou D. Bernardo, D. Edmilson e D. Bruno, da abadia de Himmerod, na Alemanha.

Após um breve intervalo (quando foi servido um delicioso bolo de banana!), abriu-se um espaço para perguntas. Para estas foram escolhidos: D. Agostinho Roberts; Pe. João Batista, do mosteiro de Itaporanga, e Me. María Jesús, do Peru.

Foi então a vez de Leandro Konder, professor da PUC, do Rio de Janeiro, apresentar sua conferência. Como ele não pôde vir, Pe. Alberico, de nosso mosteiro, leu-a em seu lugar, enquanto que D. Bruno e Pe. Estêvão, de Campo do Tenente, apresentaram as respectivas réplicas.

Ao meio-dia chegou Me. Agnes, da Hungria, acompanhada de uma oblata.

À tarde foi a vez do jornalista Irineu Cruz discorrer sobre" A pobreza vivida no seio da Igreja", questão esta que suscitou questões intrigantes dos participantes. A principal dizia, basicamente: "Como os monges, cuja vida deve ser regulada pela pobreza, podem viver num ambiente que, ainda que singelo, oferece a segurança do ter, gerando um paradoxo anti-cristão em si?", proposta pelo Pe. Bernardo.

E também tivemos a conferência do jornalista Luiz Horta, que trabalha no jornal "O Globo" há 30 anos e lida com assuntos religiosos.

Ambas conferências, em maior ou menor grau, lidavam com a Teologia da Libertação, o que causou um certo confronto (pasmem!) entre os próprios jornalistas. Novamente, o tempo pré-determinado foi insuficiente para que os assuntos fossem bem debatidos, e houve a necessidade de se ultrapassar o tempo programado.

 

Dia 29 de julho (5ª feira): Memória dos Ss. Marta, Maria e Lázaro

simpfot4.jpg (17950 bytes)A primeira conferência do dia foi a de D. Joaquim, abade do Mosteiro de São Bento, em São Paulo, que falou sobre "A crise dos superiores na Ordem", seguida pela de D. Orani, bispo da Diocese de Rio Preto, que falou sobre "O que a Ordem espera da Igreja."

Durante o almoço cantou-se "Parabéns" pelo onomástico da Me. Martha Driscoll e da sra. Marta Ribalta, leiga da Argentina, sendo servido em seguida um bolo de chocolate.

Após o almoço tivemos a conferência-testemunho de Me. Agnes que, durante o comunismo ela e sua "comunidade" viram-se obrigadas a viver a Regra de São Bento na prisão e em outras situações diversas, e de como os valores do Evangelho e da vida monástica adquirem novo significado quando são abstraídos os elementos normalmente utilizados para se vivê-la.

E então foi a vez de D. Eugênio Rixen, bispo de Goiás, belga de nascimento, falar sobre "O que a Igreja espera do monaquismo". Foi ele quem presidiu a Missa nesse dia, cujos cantos, em espanhol, foram entoados com admirável leveza pela irmã Anna Robusti, do mosteiro de N. Sra. de Quilvo; pela irmã Chiara, do mosteiro de N. Sra. de Coromoto, e por outras vozes que, infelizmente, minha memória não conseguiu guardar.

Após o jantar, tivemos a apresentação de um teatro composto por irmãos e irmãs de diversos mosteiros, que dramatizou a vinda de Me. Agnes ao Brasil, seguida pela "dança do pezinho", que foi hilária. Os irmãos Raúl Soto, do mosteiro de Miraflores, no Chile, e Sérgio, de nosso mosteiro, declamaram poesias, e a Ir. Marie Pascal cantou (e tentou ensinar os espectadores) um trecho de canto gregoriano (sua voz é belíssima!). Tudo isto acabou por volta das 20:50h. Como já havia passado o horário das Completas, pedimos para Me. Martha Driscoll cantar a "Salve Regina" tal como é cantada na Indonésia, enquanto que a Ir. Maria Inês Akamatsu, OSB, do Mosteiro do Encontro, cantou-a em japonês. Então, o Pe. João Batista, de Itaporanga, cantou um salmo; a Ir. Anna Robusti e a Ir. Chiara cantaram uma música típica italiana. A ação foi ocorrendo num crescendo e, em 15 minutos estávamos todos, irmãos e irmãs, participando de uma roda de quadrilha com direito à música junina e acordeão. Foi divertidíssimo! Passamos a cantar músicas bem alegres, que, se agradou os brasileiros, agradou ainda mais aos estrangeiros, que tiraram diversas fotos. Quando acabou já eram quase 22h.

 

Dia 30 de julho (6ª feira):

O dia começou com as Laudes com Missa, sendo o Ofício das Leituras rezado em particular.

Após o café-da-manhã tivemos a conferência de D. Agostinho Roberts, que falou sobre "A comunhão cisterciense nos dias de hoje e o que dela se espera para o futuro". Após a leitura de sua conferência – lida em espanhol –, os participantes foram divididos em grupos para debate que, a seguir, propuseram-lhe perguntas. Foram-lhe propostas algumas questões polêmicas, inclusive. Finalmente, ele apresentou a sua síntese conclusiva do Simpósio. Partiu em seguida, e abriu-se um espaço para perguntas, onde falaram os abades: D. Joaquim; D. José, do Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro; D. Bruno e também Me. Martha Driscoll.

Não houve a Hora Sexta, e logo após o almoço os participantes começaram a ir embora. A maioria se dirigiu ao nosso mosteiro, onde passaram a noite. Somente a Ir. Marie Pascal, Me. Agnes e sua companheira foram para São Paulo, no mosteiro beneditino do Morumbi.

Finalmente, já em São José, todos puderam passear um pouco pela cidade. Após o jantar festivo, houve um momento de descontração no claustro e as Completas foram rezadas mais cedo, às 19:30h, pois a maior parte dos irmãos partiria de madrugada. Para estes, houve a celebração da Santa Missa, às 4h.

Permaneceram em nosso mosteiro: D. Plácido, da Venezuela, e os irmãos Raúl Soto e André Fortin. D. Plácido concelebrou com nosso abade a Missa das 19h do sábado e, junto com o irmão Raúl e o Ir. André, partiram no domingo.

 

Conclusão

Este Simpósio ofereceu uma oportunidade singular a todos os seus participantes, de poderem entrar em contato com pessoas experientes, que discorreram sobre temas atuais da vida monástica cisterciense. Tivemos a oportunidade de vivenciar também nós, a maneira como é vivida a Regra de São Bento nas diferentes culturas, e como cada uma oferece meios particulares de se poder dela nutrir. Ao mesmo tempo que foi uma fonte de curiosidade saber como que o carisma cisterciense é vivido em culturas tão diferentes da nossa, foi fonte de alegria perceber que, aonde quer que Deus semeie a vida monástica, ela é possível de ser vivida. Oxalá daqui a 100 anos, quando celebrarmos o 1.000.º aniversário de nossa Ordem, possam as futuras gerações ser agraciadas com uma Ordem que reflita em perfeição ainda maior os planos do amor de Deus para com seus filhos!

 

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