ÍCONE DA IGREJA ABACIAL
Interpretação pessoal com parâmetros usados
 para os ícones da Igreja Bizantina Russa

No centro do quadro, há um trono lilás, lembrando que a pregação anterior a Jesus se marcava fortemente pelo apelo à penitencia e conversão. Está colocado no centro de uma grande cruz em ouro escuro, que significa a abundancia divina. Esta cor domina toda a obra.

Esta mesma cor, um pouco diluída em outros lugares, é como uma revelação que se faz pouco a pouco, uma iniciação que o monge faz gradativamente. Todo este amarelo ouro, fala da superabundância da vida Trinitária que nos é dada em sua totalidade no mistério do amor crucificado revelado na cruz que tem sua haste vertical bem plantada na terra e mergulha no céu. A haste horizontal que se iguala em tamanho à haste vertical, sugere que o amor ao próximo deve nos comprometer quase tanto quanto o amor a Deus.

A terra, onde a cruz se planta firmemente, é de um vermelho mais esmaecido, porque suavizada pela presença da cruz salvadora. A terra onde os santos abades se apóiam, é da mesma cor do escabelo onde se apóiam os pés da Mãe de Deus. A terra sempre significa segurança por oposição à água para os navegantes (Quando o Senhor morreu na cruz, a terra tremeu, mostrando que a antiga segurança já não bastava mais) A cor ocre da terra (terra roxa) como a desta região, sugere que toda mensagem se dirige a este povo, transportando toda a revelação divina para este espaço em que Deus se revela.

As formas geométricas mais evidentes são o triângulo, o círculo, o retângulo e o quadrado. Estes dois últimos são o hieróglifo da terra: 4 ângulos, 4 pontos cardeais, 4 ventos, os 4 cantos do mundo. Cifra simbólica para os 4 evangelhos na sua plenitude, onde nada se pode tirar nem acrescentar, sinal da universalidade da Palavra, onde Jesus se define como Luz (a janela da direita) e insiste na oração-contemplação (incenso na janela da esquerda).

O triângulo é bem marcado, pelas linhas imaginárias unindo as auréolas da Mãe de Deus, no seu vértice e dos Santos Abades em sua base. No centro deste triângulo se encontra a mão direita do Filho de Deus, (sobre seu coração) em gesto ao mesmo tempo de abençoar e indicar a Palavra, livro que tem em sua mão esquerda, marcado com sua característica revelada: " Eu sou o Alfa e o Omega, o primeiro e o último, o principio e o fim,"(Ap.22,13) aquele que é, que era e que virá, estive morto e agora vivo pelos séculos eternos". Este triângulo comanda toda a obra, como a eternidade comanda o tempo.

No quadro, não há sombras. Nenhuma parte do quadro é iluminada, mas difunde sua própria luz, que brota de um foco secreto. A densidade das cores - azul, vermelho, preto, branco, contrasta com o amarelo-ouro.

Do quadro vem um forte apelo: "Aceitem o Filho. Eu o entrego através de sua Mãe e da direção dada pelos Santos Abades com sua Santa Regra, atualizada neste lugar e tempo. Vocês são comunidade, isto é, criados à imagem do Deus Trindade, para usar seu tempo, seu corpo, coração e alma, na oração e escuta da Sua Palavra. Ele os liberta de si mesmos na sua cruz redentora. Todos são convidados a se unir em torno da mesma Palavra e se elevar ao nível do coração Divino."

As figuras esbeltas - o corpo 14 vezes o tamanho da face ( 7 vezes é o normal), significa grandeza e santidade.

Suas vestes, tratadas de forma esquemática, dão a impressão de leveza, de imaterial (menos a figura da Mãe de Deus).São leves, de caimento simples, sugerem um corpo alongado, exprimem o elemento de força e combinam com a forma suave das faces, com um ritmo de frescura juvenil que proclama graça e força contidas no interior das figuras. As calvices tonsuradas sublinham a firmeza e a fragilidade das fisionomias espiritualizadas. A perspectiva consegue abolir a distancia e a profundidade onde as coisas se alongam ao longe e, por um efeito contrário, aproxima as figuras daquele que contempla, mostrando que Deus está presente e que está em toda parte.

Notam-se ainda vários planos superpostos: O fundo, espaço onde a revelação se faz, de tonalidade mais forte do amarelo-ouro, como que para sustentar toda a revelação que se segue. O trono lilás, sustentáculo e expressão da dignidade e eternidade das duas mais importantes figuras: a Mãe e seu Menino. A grande cruz, apoio para toda a revelação do amor crucificado e vivo eternamente. O céu, acima de toda a cena, onde se revela a perenidade do ato criador. As duas pequenas janelas, iluminadas mais fortemente que o resto da obra. É um convite a penetrar, mais profundamente, paulatinamente e com firmeza, na espiritualidade e história desta ordem que deseja sempre reformar-se para reformar a Igreja e a Sociedade. Sugere um diálogo entre S.Bento e S.Bernardo, cujo tema poderia ser " Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho único, nascido de uma Mulher..."

 

AS FIGURAS

1- O PAI está presente numa figura estilizada, em movimento num céu tempestuoso, apresenta uma poderosa e eterna juventude, em contraste com a eterna senectude da arte renascentista. Sua mão direita aureolada, com todo seu poder criador, no " Fiat" eterno que se manifesta em toda sua grandeza na vinda do Filho, por meio de Maria. A cruz, com a cor um
pouco mais clara, porque livre a fraqueza da humanidade, é introduzida na glória eterna, pela ascensão do Filho.

2- A MÃE DE DEUS é a figura que mais se destaca. Colocada bem no centro, com sua túnica vermelho-escuro (símbolo do amor de Deus que a envolveu desde sempre) o manto com véu (maphorion) azul escuro, (simboliza a verdade celeste) tendo na barra um precioso galão dourado, com 3 estrelas, uma sobre a fronte e uma em cada ombro, sinal dogmático de sua virgindade perpétua. (as estrelas sobre os ombros, são também um sinal de poder: no oriente, um servo beija seu superior nos ombros). É uma figura grande, bem maior que os santos Abades Bento e Bernardo, como a reafirmar Apocalipse 12,1 = "O sinal grandioso aparecido no céu, uma mulher" e Ct.6,10= "terrível como um exército em ordem de batalha..." Ela paira, apesar do trono, como uma revelação que vem do alto.

Colocada mais alta que os Santos Abades, como centro da mensagem. Sua postura monumental, revela paz hierática e imobilidade mas, por um contraste dos mais tocantes, o movimento do braço esquerdo, dá a impressão de uma paz oferecida. É o extremo oposto das madonas de Rafaello. Sua beleza é diferente dos cânones terrestres. Apresentada com os traços transcendentes da nova criatura, totalmente deificada, seu rosto é pleno de majestade celeste mas, ao mesmo tempo, todo humano, expressa uma tristeza serena. Seu olhar tem uma densa e forte aflição, mas contempla o infinito com compreensão amorosa das fraquezas dos filhos. Poderia talvez sugerir o hipotético epsódio de S.Bernardo, em dificuldades, dizer à imagem do jardim: "Monstra te esse matrem" e a resposta vinda do lado da imagem: "Monstra te esse filium".

Não está coroada com as 12 estrelas do Apocalipse 12,1, mas elas pairam como um dossel sagrado sobre a Mulher e seu Filho. Com a mão direita, aponta a mão direita do Filho que abençoa e, a esquerda, estendida a S.Bernardo, como que aceitando sua oferta.

3- O MENINO - Longe da tocante ingenuidade do Bambino Gesú. Ele é o Verbo Eterno. Usa vestes de adulto. Só seu tamanho revela que se trata de uma criança. No mais é a maturidade do Ser eterno e imortal. Seu rosto, sério e majestoso, reflete a sabedoria Divina.

Sua roupa, tecida de branco e ouro, sinal do sol sem ocaso, cores da dignidade divina. O centro do triângulo, formado pelas auréolas de sua Mãe e de seus servos, é sua mão que abençoa e indica sua realidade: Alfa e Omega, principio e fim de tudo. Abençoa também a realidade sugerida a seus pés, a reforma monástica proposta por Cistér, apesar da força transformadora de Cluny. A mão direita da Mãe, como que secunda a bênção do Filho.Está no colo da Mãe, como em um trono. É Ele que, por seu olhar, introduz o orante na revelação do ícone.

4- SÃO BENTO - Sua figura, de um ancião, se mostra ainda viril e forte, sugerindo que assim é seu ideal: eternamente robusto, apesar da decadência dos tempos. Está voltado na direção de São Bernardo. Fiel ao cap. 7 de sua Regra, está com a cabeça inclinada.

Transpira humildade. Na linguagem simbólica das linhas, as curvas côncavas significam obediência, atenção, abnegação, receptividade. Assim inclinada, da figura de S.Bento emanam estas virtudes. A mão direita estendida em direção ao solo, terra firme, que simboliza segurança, como a dizer que abre mão do espaço que é dele. Seu olhar sai do quadro, em direção da cadeira do Abade, reconhecendo que este, fazendo as vezes de Cristo (R.B.2.2) é mais seu sucessor na comunidade dos irmãos e herdeiro do seu carisma. Tem na mão esquerda, meio afastado do corpo, o livro da R.B. como em oferta permanente a quem retomou seu ideal mais radicalmente: São Bernardo. A inclinação de seu corpo e sua cabeça, é também uma homenagem à Mãe de Deus e seu Filho. Seu báculo sinal de poder e autoridade, sustentado pelo braço esquerdo e muito inclinado sugere que agora é outro que indica o caminho, que conduz. Em seu campo, há uma luz, brilhando em espaço mais claro, mais iluminado, mas não ilumina o quadro. Está fechada em outra realidade e é apenas vista através de uma estreita janela retangular, sugerindo que a claridade que difunde no campo fechado, poderia ser difundida ainda no campo total do quadro, na realidade atual.

5- SÃO BERNARDO: Sua postura é ereta, decidida, voltada para a Mãe de Deus e seu Filho.Segura o báculo com o braço direito, mais firmemente, está quase na posição vertical. O báculo é menos elaborado - mais pobre - que o de S.Bento. Sua mão direita, exprime atitude de rejeição à oferta de São Bento de se colocar em inferioridade diante de quem renovou sua ordem. A juventude de S.Bernardo choca, diante da velhice de S.Bento. Significa vida nova, cheia de esperança. A postura decidida de S.Bernardo, foge da interpretação iconográfica tradicional, em que velhice signifique sabedoria, experiência, santidade e a juventude, o contrário: inexperiência, afoiteza, rejeição da tradição, do que é mais velho. Em seu campo, uma pequena janela retangular, revela a claridade oculta e misteriosa mas, o turíbulo deixa a fumaça se expandir para o lado do Menino e sua Mãe, sugerindo que atingirá todo o quadro, pois a oração do Justo, sobe até Deus e envolve a realidade terrestre.

CONCLUINDO: - A revelação termina nesta nota escatológica: "Eis uma antecipação do Reino dos Céus, iluminada por uma luz que não é deste mundo, enfim, banhada por uma alegria pura e desinteressada, por uma felicidade divina, pelo simples fato que Deus existe, que nós somos amados, que a Trindade se preocupa em se revelar a nós e que tudo é graça de Deus. O êxtase brota da alma que se cala." Os místicos nunca falam do ápice da contemplação, Só o silencio o descobre.

O Pai se manifesta no seu poder criador. O Filho se revela Princípio e Fim. E o Espírito Santo? Ele está no coração do que contempla o ícone.

Atualizado em - 28/03/06

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