Mensagens de São Bernardo para vocacionados indecisos

 

 

São Bernardo chegou a escrever algumas cartas para vocacionados indecisos na vocação devido a problemas pessoais e familiares. Uns se julgavam indignos, outros alegavam pressão da família, necessidade de acabar primeiro os estudos, etc.

Leia a resposta de nosso Pai São Bernardo, abade de Claraval, em alguns destes casos:

Mencionamos aqui a correspondência de São Bernardo com Tomás, preboste de Beverley, Yorkshire. Este jovem dignitário distinguia-se pela nobreza de seu nascimento, ampla fortuna e brilhantes dons intelectuais.

Concebeu o desejo de ingressar na comunidade de Claraval, mas deteve-o, aparentemente, o pensamento dos seus pecados passados, que, supunha, o tomavam indigno de se associar aos servos de Deus.

Bernardo, informado do seu estado de espírito, escreveu-lhe a encorajá-lo.

"Sinto-me profundamente satisfeito com o que me contaram de vós. Não me refiro à nobreza do vosso sangue, à vossa beleza pessoal, à vossa imensa fortuna ou à vossa elevada dignidade, mas simplesmente à agudeza do vosso espírito, ao vosso caráter simples, reto e, acima de tudo, ao amor pela santa pobreza com a qual, segundo sei, fostes dotado, ultimamente, entre os ricos. Isto ocasionou-me, na verdade, um enorme prazer e elevadas esperanças as quais, com o auxílio de Deus, não serão confundidas' (Rm 5,5). Que esta minha alma se comunique aos anjos sagrados que anseiam por uma verdadeira festa de júbilo e prazer pela vossa conversão (Lc 15, 7). Oh, se me fosse concedido atender e guardar a flor da vossa juventude, flor de tão rara beleza - preservá-la pura de toda a corrupção e apresentá-la plena de doce odor ao Senhor! Mas a vossa consciência poderá replicar que falei demasiado tarde, que a flor da vossa inocência foi já manchada por múltiplos e dolorosos pecados. Mesmo nesse caso, não sereis menos bem-vindo. Um pecado dificilmente pode ser uma abominação de outro. Estando eu próprio infectado, não me assiste o direito de rebaixar quem parece situar-se na mesma condição. E, por terrível que seja a malignidade da enfermidade espiritual de que sofreis, não me alarma quando penso na perícia e bondade do médico celestial, das quais possuo freqüentes experiências através das minhas próprias moléstias. Por muito repelentes que sejam os vícios que contraístes, por muito obscurecida que se ache a vossa consciência, ainda que tenhais arruinado a vossa juventude com os crimes mais atrozes e, como as feras apodreçais agora no esterco das próprias maldades (Jl 1, 17) - não duvideis de que Ele vos lavará e de uma tal forma que 'ficareis mais branco do que a neve' (Sal. 50, 9) e 'a vossa juventude será renovada como a da águia' (Sl 102, 5).

"Uma consciência boa é um tesouro sem preço, pois existirá alguma coisa no mundo que possa tornar um homem tão rico, tão tranqüilo e seguro? Uma consciência boa nada receia: a perda de bens, feridas dolorosas, castigos corporais ou a própria morte cuja aproximação mais a alegra do que deprime. Que felicidade terrena se pode comparar a esta? Possui o mundo algo assim para legar aos seus devotos? Pretende mesmo prometer tal aos seus loucos admiradores? Suponde que haveis adquirido propriedades sem limites, imponentes palácios, elevado cargo eclesiástico, a própria dignidade real - para não mencionar as ansiedades com que estas coisas são obtidas e possuídas, a morte não vo-las arrebatará? Está escrito: 'Dormiram o seu sono e todos os ricos nada encontraram em suas mãos' (Sl 75, 5). Porém, as flores e frutos de uma consciência boa nunca definham, nunca se perdem; não definham no trabalho nem desaparecem com a morte; ao invés, florescem de novo. Alegram-nos em vida, confortam-nos na morte; mortos, ressuscitam-nos e continuam conosco para sempre".

Tomás chegou ao ponto de prometer o seu ingresso em Claraval, mas retardou tanto o cumprimento da palavra que o São Bernardo lhe endereçou nova e mais extensa carta. Entre outras coisas, dizia ao indeciso: "Possuís riquezas em abundância e o mundo deve amar o que lhe pertence. Por quanto tempo pensais que essas riquezas perdurarão? Eternamente? É impossível, uma vez que o próprio mundo não existirá eternamente. Não vos poderá preservar os bens ou a vida por muito tempo, pois 'curtos são os dias do homem' (Jó 14, 5). 'Na verdade, o mundo desaparece com a concupiscência que contém' (l Jo 2, 17), mas antes de terminar, terminará convosco".

Estas solenes palavras surgem com significado duplo em face dos últimos acontecimentos. Tomás renunciou ao propósito de se tornar monge, abandonou, igualmente, ao que parece, a prática da virtude e terminou abruptamente a sua existência ainda na flor da mocidade. Escrevendo a Tomás de S. Omer, que imitou o seu homônimo inglês ao fazer e anular a promessa de ingressar em Claraval, Bernardo diz: "Pareceis inspirado pelo mesmo espírito, tal como sois chamado pelo mesmo nome, idêntico ao de Tomás. Também ele se comprometeu a ingressar na nossa Ordem e abadia. Não obstante, principiou a adiar e, pouco a pouco, perdeu o fervor até que, já mundano e apóstata, 'duplo filho do inferno' (Mt 23, 15), foi levado por uma morte súbita e terrível - que o nosso Senhor justo e misericordioso tenha piedade de sua alma, se tal piedade ainda é possível. Escrevi-lhe, prevenindo-o o melhor que pude das 'coisas que rapidamente se situam no passado' (Ap 1, 1), mas tudo em vão, à exceção de haver aliviado a minha consciência. Feliz teria ele sido se houvesse seguido o meu conselho. Contudo, recusou e 'estou limpo do seu sangue' (Dn 13, 46), Porém, isso não me contenta pois, embora a consciência de nada me acuse, neste assunto, 'a caridade não busca os próprios interesses' (l Cor 13, 5), força-me a lamentar aquele que não encontrou segurança na morte porque vivera demasiado seguro. Oh, impenetrável abismo dos julgamentos divinos! Oh, como é terrível Deus nos seus desígnios sobre os filhos dos homens (Sl 49, 5)! Concedeu o seu Espírito Santo e retirou-o de novo, tomando o pecador mais culpado que dantes; comunicou a sua graça com resultado algum melhor que multiplicar o pecado através da falta, não do doador, mas do abusador da graça".

Um elevado número das cartas de São Bernardo são deste tipo, dirigidas a irresolutos que, depois de colocarem a mão no arado, principiaram a olhar para trás. Os pontos mais frisados são a brevidade e incerteza da vida, a insignificância de tudo quanto o tempo nos pode arrebatar, o perigo a que cada um se expõe ao resistir à graça e a paz de uma consciência boa que compensa amplamente todos os sacrifícios exigidos pela vocação religiosa. Na opinião de Bernardo, Deus não possui maior dádiva para conferir do que a graça da chamada ao claustro, nem existe maior glória possível para o homem do que a de corresponder a essa graça auxiliando os outros a proceder identicamente. A chamada deveria ser atendida prontamente, pois a experiência ensinara-lhe que as demoras são duplamente perigosas; 'a palavra do Senhor corre impetuosamente' (Sl 147, 15), gostava ele de citar a esse respeito.

 

Certa vez, quando um jovem estudante de filosofia, depois de se haver preparado para ingressar em Claraval, solicitou permissão para adiar a data da sua entrada, aparentemente no intuito de completar os estudos, recebeu a seguinte resposta:

"Servindo-me da linguagem a que estais familiarizado, o homem é um animal racional mortal. A racionalidade é uma dádiva do seu criador, a mortalidade um castigo do seu pecado. A primeira eleva-o a uma igualdade com os anjos; a última afunda-o ao nível das feras. Mas, tanto uma como outra, devem animar-nos e incitar-nos a procurar o Senhor. Estou 'cônscio da vossa palavra pela qual me conferistes esperança' (Sl 118, 49). E, como chegou o momento esperado, exijo o cumprimento da vossa promessa. Rogo-vos que 'não tremais com medo onde o medo não existe' (Sl 13, 5). Servir o Senhor com alegria (Sl 99, 2) não constitui tanto um peso como uma honra. Não, não me atrevo a permitir que adieis a execução do vosso propósito; nada é mais certo que a morte, nada mais incerto que a sua hora. Mas, que deverei dizer de vossa tenra idade? Apenas isto: o fruto verde é muitas vezes arrancado da árvore pela mão ou pela tempestade. Quanto à vossa beleza pessoal, permiti que vos refira as palavras do poeta:

Não confies na cor, jovem beldade,

A menos que desejes fugir à verdade.

Os arandos negros com cuidado arrancamos

Mas ao caruncho o belo arbusto deixamos

"Afastai-vos, afastai-vos com José da casa de Faraó e, como aquele jovem santo, abandonai a glória do mundo atrás de vós nas mãos da tentadora egípcia (Gn 39, 12). Afastai-vos do país e dos parentes, 'olvidai os vossos e a casa de vosso pai, e o rei desejará profundamente a vossa beleza' (Sl 14, 11-12). Recordai que o Menino Jesus não é encontrado entre os seus parentes e conhecidos' (Lc 2, 44). Afastai-vos da casa de vosso pai para encontrá-lo, porquanto Ele deixou a casa de seu pai por vós; 'a sua saída é desde as alturas do céu' (Sl 18, 7).

Aquela mulher de Canaã, que se afastou de seu pai , mereceu encontrá-lo ao gritar-lhe: 'Tem misericórdia de mim, ó Senhor, filho de Davi'. E Ele, com a graça que lhe brota dos lábios (Sl 44, 3), respondeu-lhe com as palavras: 'O mulher, grande é a tua fé. Que seja feita a tua vontade’. (Mt 15, 22-28). Satanás poderá repelir Satanás; todavia, o espírito da verdade nunca será inconsistente consigo próprio. Ora, estou persuadido de que foi este bom espírito que me falou por vossa boca quando estabelecemos o dia da vossa entrada aqui. Esforçai-vos, pois, por não sofrer qualquer inclinação tanto para a mão direita como para a esquerda, e vinde para Claraval consoante a vossa promessa. Esta curta mensagem foi traçada por minha própria mão e envio-a por Gerardo, meu amado filho e vosso amigo. Não tenteis apresentar escusa alguma. Se pensais que é lastimável deixar a vossa educação incompleta e preferirdes prosseguir os estudos sob a orientação de um mestre, recordai que 'o Mestre se encontra aqui e chama por vós' (Jo ll, 28), aquele Mestre 'no qual se reúnem todos os tesouros da sabedoria e conhecimento' (Cl 2, 3). É Ele 'quem ministra o conhecimento ao homem' (Sl 93, 10), 'Quem torna as línguas das crianças eloqüentes' (Sb 10, 21), 'Que abre e homem algum fecha, fecha e homem algum abre' (Ap 3, 7).

 

A um insigne literato, Walter de Chaumont, que era impedido de ingressar no claustro por amor de sua mãe, o santo escreve:

"Ligado por afeto a vossa mãe, não podeis ainda abandonar o mundo que aprendestes há muito a desprezar. Que conselho deverei oferecer-vos? Que deixeis vossa mãe? Mas, isso parecia cruel. Permanecer com ela? Mas, isso não seria vantajoso, mesmo para ela - porque se tornava a causa da perdição do filho. Servir, ao mesmo tempo, Cristo e o mundo? 'Homem algum pode servir dois senhores, (Mt 6, 24). A vontade de vossa mãe, neste assunto, sendo contrária à vossa salvação, é contrária a ela própria. Se a amais verdadeiramente, abandoná-la-eis para sua salvação, não vá o vosso abandono de Cristo para permanecerdes a seu lado ser a causa da sua ruína. Na verdade, como poderá ela escapar à destruição se permitir que destruam aquele a quem deu a vida? Afirmo isto independentemente da compreensão pelo vosso afeto natural. Todavia, constitui 'um adágio fiel e digno de toda a aceitação' (l Tm 1, 15) que, embora seja ímpio desprezar a mãe por um motivo terreno, é piedade em si desprezar a mãe por amor de Deus. Efetivamente aquele que disse: 'Honra teu pai e tua mãe' (Mt 15, 4), disse também: 'Aquele que ama o pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim' (Mt 10, 37)".

Pela intensa estima que Bernardo nutria pela vocação religiosa, podemos imaginar com que severidade tratava os que se lhe opunham. No entanto, não ficamos em meras inferências.

 

Possuímos uma carta dirigida a um pai e mãe que se esforçavam firmemente por induzirem seu filho, Elias, a abandonar o noviciado de Claraval. A linguagem utilizada é absolutamente terrível, demasiado assustadora para ser reproduzida aqui. Mostra-nos que, Bernardo desprezava as sensibilidades humanas ou as exigências da carne ou do sangue quando se tratava de proteger uma alma imortal. Qualquer pessoa que tentasse aliciar um noviço de novo para o mundo era, na opinião do santo, um agente do demônio a executar a sua obra, pois no sexagésimo terceiro dos seus sermões acerca do Cântico, ao referir-se às tentações dos noviços, descreve a passagem da vida religiosa à secular como 'um salto do alto para o abismo, do cimo do céu para as profundezas da terra, do paraíso para o inferno'. Devemos presumir que constituía uma ocorrência rara a expulsão de um noviço de Claraval durante o tempo de Bernardo. Não existe caso algum registrado, que saibamos, e somente foi recusada admissão a um postulante, por qualquer motivo desconhecido. Porém, possuímos provas da interferência do santo a favor de um pobre noviço expulso de outro mosteiro. Ao superior que se mostrava relutante em readmitir o jovem, diz: não lestes: 'Julgamento sem clemência para quem não tiver usado de clemências?' (Tg 2, 13). Olvidastes as palavras do Redentor: 'Com a medida que medires serás medido' (Mt 7, 2)? Ou desprezais a promessa efetuada aos misericordiosos 'que obterão misericórdia" (Mt 5, 7)? 'Mas (replicareis), este noviço foi expulso justamente'. Se a sua expulsão foi justa ou injusta, pouco me preocupa. Todavia, isto considero faltoso, disto me queixo, isto encaro como uma crueldade incrível: que, depois de ele se haver humilhado, quando persistiu em bater à vossa porta, depois de ter praticado a paciência e prometido emendar-se, nem então reconsiderastes, embora o apóstolo 'aconselhe a que confirmeis a vossa caridade para com ele' (2 Cor 2, 8), e São Bento indique que merece segundo julgamento. Indubitavelmente, se a sua expulsão foi injusta, a justiça exige que seja chamado de novo; contudo, se foi despedido justamente, representará um belo exercício de caridade readmiti-lo.

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