Ano 16  -  São José do Rio Pardo - outubro de 2006 - nº 199

Nunca me esquecerei quando Dom Orani, prior na época, ligou de Roma no dia 10 de setembro, memória do Beato Oglério, abade cisterciense, comunicando que o nosso mosteiro tinha sido elevado a Abadia. Dom Orani estava emocionadíssimo, dizendo que os Padres Capitulares aprovaram de forma unânime nosso pedido para tal. Imediatamente toquei o sino do claustro para anunciar a novidade para os demais monges.

Esta nova configuração do mosteiro como Abadia não é que trazia grandes mudanças. Basicamente o superior recebe nome de Abade, tem-se um brasão e maior reconhecimento diante instâncias da Congregação e Ordem.

Antes de nosso mosteiro ser elevado a Abadia sentíamos que algo faltava. O mosteiro, por conta do carisma de Dom Orani, já contava de boa reputação por todos, mas com o título de Abadia foi nova etapa iniciada. O Bispo da época, Dom Dadeus Grings já tinha dito que éramos o orgulho da Diocese de São João da Boa Vista. Muitos monges de outros mosteiros nos questionavam por que não éramos ainda Abadia, se já tínhamos o número de professos solenes a muitos anos. Sempre respondia que eram questões históricas e jurídicas da Congregação e que o mais importante era que fossemos fiéis sem maiores pretensões. Confesso que com o tempo pecamos ao pensar que éramos melhores que os outros, por isso que o Senhor nos podou muitas vezes, para o nosso bem.

A vida de nossa Abadia foi marcada por altos e baixos, para reconhecer que a obra é de Deus e que não vem de nós. No mosteiro foram dadas oportunidades para tantas pessoas. Muitos aproveitaram estas chances, outros nem tanto.

Antes de sermos Abadia uma experiência de fundação foi feita em Maringá em 1992-1993. depois convites para a fundação em vários locais do Brasil foram feitos, mas quis a Providência que fôssemos para mais longe, para um país mais ocidental, o Chile, ano do Grande Jubileu, 2000, para uma diocese chamada San Bernardo, a única no mundo.

Uma exposição cobrindo esses 10 anos foi feita na Sala Capitular com fotos, arranjos. Também um DVD com os momentos mais marcantes desta primeira década. Dom Abade Edmilson proferiu uma alocução com grande propriedade, repassando, aos olhos da fé, os acontecimentos.

Pude nestes dias, como secretário e cronista, fazer o elenco cronológico de todos os fatos: vocacionados, entradas no postulantado, vestições de noviços, profissões temporárias e solenes; instituição nos ministérios de acólito e leitor, admissão às ordens sacras, ordenações diaconais, presbiterais e uma episcopal; eleições e bênçãos abaciais; oblação regular e muitas oblações seculares, bem como uma consagração de leiga; fundação de novo mosteiro; jubileus de profissão e ordenação; nomeações de monges para cargos: bispo, administrador e visitador apostólico, arcebispo; vigário episcopal, vigário forâneo, membro do colégio de presbíteros, pároco e reitor de santuário; ainda lembramos da recepção de títulos conferidos por
municípios e entidades sociais.

Do ministérios pastoral em paróquias, capelanias e pastorais.

Do serviço que monges desempenham como professores de filosofia e teologia, como assessores em conselhos municipais; em pregação de retiros em outros mosteiros, casas religiosas e clero diocesano.

Da hospedaria que é procurada para retiros, discernimento, orientação espiritual, parada para peregrinos do Caminho da Fé que leva a Aparecida.

Desde 1987 o prédio do mosteiro foi sendo ampliado. Pude ver que enquanto as paredes subiam o Senhor edificava sua morada em nossos corações. Assim é que foram sendo aos poucos sendo inauguradas a hospedaria, as novas celas, o claustro, a sala capitular, a sala de recreio e de estudos, a biblioteca, a torre, a cripta, etc.

Nove anos depois de se tornar Abadia é que ficou pronta a Igreja Abacial, obra-prima tão sonhada e agora elogiada por todos. Ali ao menos 7 vezes ao dia nos reunimos para a Liturgia das Horas e a Eucaristia, agora com boa participação de fiéis.

Fica aqui nosso tributo de agradecimento aos nossos monges já falecidos que tanto esperaram por ver este dia. Aos monges italianos que no início da fundação derramaram seu suor, por vezes misturado com as lágrimas.

Que este nosso mosteiro continue a ser uma presença discreta mas marcante no mundo de hoje; que seja um oásis de contemplação; uma escola do serviço do Senhor; uma escola de caridade, e que muitos outros possam beber desta fonte cristalina da espiritualidade monástica.

Na capela do SSmo. Cristo sustenta as colunas como que para mostrar que é Ele quem nos sustenta, sem ser sustentado por nada e ninguém.

Oxalá nós sejamos perseverante até o fim em nossa busca de Deus, perseverando nos claustros do mosteiro, formados nas fileiras fraternas e que um dia possam dizer de nós o mesmo que falaram de tantos santos e santas da Ordem Cisterciense:

Este monge deixou-se encontrar por Deus, buscou a Deus verdadeiramente, fez do mosteiro Escola do serviço divino,Escola da Caridade, oficina da arte espiritual.

Desde o início de sua vida monástica, foi solícito ao Ofício Divino,à obediência e aos opróbrios, tudo fez por um amor maior.

Escutou os preceitos do Mestre, inclinou os ouvidos do coração,voltou a Deus pelo labor da obediência, concordou a mente e a sua voz..

Militou sob a Regra de São Bento, amou o Abade e os irmãos, perseverou no Mosteiro até a morte, é nosso modelo nas provações.

Honremos este homem ilustre, que rezou e trabalhou pelo Senhor, sentiu com a Igreja de seu tempo, conceda-nos hoje novos irmãos. 

Não só este temos a recordar, mas um ‘Mais Velho’ a imitar, a Trindade Santa nos dá a Graça, de que é possível hoje mudar.

Que em meio às alegrias e pecados Deus continue a escrever sua História de Salvação em nossas vidas.

UIOGD et BMV

Pe. Paulo Celso Demartini O. Cist. Prior da Abadia


 

 

Atualizado em - 15/10/06

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