

Nunca me esquecerei quando Dom Orani, prior na época, ligou de Roma no dia
10 de setembro, memória do Beato Oglério, abade cisterciense, comunicando
que o nosso mosteiro tinha sido elevado a Abadia. Dom Orani estava
emocionadíssimo, dizendo que os Padres Capitulares aprovaram de forma
unânime nosso pedido para tal. Imediatamente toquei o sino do claustro para
anunciar a novidade para os demais monges.
Esta nova configuração do mosteiro como Abadia não é que trazia grandes
mudanças. Basicamente o superior recebe nome de Abade, tem-se um brasão e
maior reconhecimento diante instâncias da Congregação e Ordem.
Antes de nosso mosteiro ser elevado a Abadia sentíamos que algo faltava. O
mosteiro, por conta do carisma de Dom Orani, já contava de boa reputação por
todos, mas com o título de Abadia foi nova etapa iniciada. O Bispo da época,
Dom Dadeus Grings já tinha dito que éramos o orgulho da Diocese de São João
da Boa Vista. Muitos monges de outros mosteiros nos questionavam por que não
éramos ainda Abadia, se já tínhamos o número de professos solenes a muitos
anos. Sempre respondia que eram questões históricas e jurídicas da
Congregação e que o mais importante era que fossemos fiéis sem maiores
pretensões. Confesso que com o tempo pecamos ao pensar que éramos melhores
que os outros, por isso que o Senhor nos podou muitas vezes, para o nosso
bem.
A
vida de nossa Abadia foi marcada por altos e baixos, para reconhecer que a
obra é de Deus e que não vem de nós. No mosteiro foram dadas oportunidades
para tantas pessoas. Muitos aproveitaram estas chances, outros nem tanto.
Antes de sermos Abadia uma experiência de fundação foi feita em Maringá em
1992-1993. depois convites para a fundação em vários locais do Brasil foram
feitos, mas quis a Providência que fôssemos para mais longe, para um país
mais ocidental, o Chile, ano do Grande Jubileu, 2000, para uma diocese
chamada San Bernardo, a única no mundo.
Uma
exposição cobrindo esses 10 anos foi feita na Sala Capitular com fotos,
arranjos. Também um DVD com os momentos mais marcantes desta primeira
década. Dom Abade Edmilson proferiu uma alocução com grande propriedade,
repassando, aos olhos da fé, os acontecimentos.
Pude nestes dias, como secretário e cronista, fazer o elenco cronológico de
todos os fatos: vocacionados, entradas no postulantado, vestições de
noviços, profissões temporárias e solenes; instituição nos ministérios de
acólito e leitor, admissão às ordens sacras, ordenações diaconais,
presbiterais e uma episcopal; eleições e bênçãos abaciais; oblação regular e
muitas oblações seculares, bem como uma consagração de leiga; fundação de
novo mosteiro; jubileus de profissão e ordenação; nomeações de monges para
cargos: bispo, administrador e visitador apostólico, arcebispo; vigário
episcopal, vigário forâneo, membro do colégio de presbíteros, pároco e
reitor de santuário; ainda lembramos da recepção de títulos conferidos por
municípios e entidades sociais.
Do
ministérios pastoral em paróquias, capelanias e pastorais.
Do
serviço que monges desempenham como professores de filosofia e teologia,
como assessores em conselhos municipais; em pregação de retiros em outros
mosteiros, casas religiosas e clero diocesano.
Da
hospedaria que é procurada para retiros, discernimento, orientação
espiritual, parada para peregrinos do Caminho da Fé que leva a Aparecida.
Desde 1987 o prédio do mosteiro foi sendo ampliado. Pude ver que enquanto as
paredes subiam o Senhor edificava sua morada em nossos corações. Assim é que
foram sendo aos poucos sendo inauguradas a hospedaria, as novas celas, o
claustro, a sala capitular, a sala de recreio e de estudos, a biblioteca, a
torre, a cripta, etc.
Nove anos depois de se tornar Abadia é que ficou pronta a Igreja Abacial,
obra-prima tão sonhada e agora elogiada por todos. Ali ao menos 7 vezes ao
dia nos reunimos para a Liturgia das Horas e a Eucaristia, agora com boa
participação de fiéis.
Fica aqui nosso tributo de agradecimento aos nossos monges já falecidos que
tanto esperaram por ver este dia. Aos monges italianos que no início da
fundação derramaram seu suor, por vezes misturado com as lágrimas.
Que
este nosso mosteiro continue a ser uma presença discreta mas marcante no
mundo de hoje; que seja um oásis de contemplação; uma escola do serviço do
Senhor; uma escola de caridade, e que muitos outros possam beber desta fonte
cristalina da espiritualidade monástica.
Na
capela do SSmo. Cristo sustenta as colunas como que para mostrar que é Ele
quem nos sustenta, sem ser sustentado por nada e ninguém.
Oxalá nós sejamos perseverante até o fim em nossa busca de Deus,
perseverando nos claustros do mosteiro, formados nas fileiras fraternas e
que um dia possam dizer de nós o mesmo que falaram de tantos santos e santas
da Ordem Cisterciense:
Este monge deixou-se encontrar por Deus, buscou a Deus verdadeiramente, fez
do mosteiro Escola do serviço divino,Escola da Caridade, oficina da arte
espiritual.
Desde o início de sua vida monástica, foi solícito ao Ofício Divino,à
obediência e aos opróbrios, tudo fez por um amor maior.
Escutou os preceitos do Mestre, inclinou os ouvidos do coração,voltou a Deus
pelo labor da obediência, concordou a mente e a sua voz..
Militou sob a Regra de São Bento, amou o Abade e os irmãos, perseverou no
Mosteiro até a morte, é nosso modelo nas provações.
Honremos este homem ilustre, que rezou e trabalhou pelo Senhor, sentiu com a
Igreja de seu tempo, conceda-nos hoje novos irmãos.
Não
só este temos a recordar, mas um ‘Mais Velho’ a imitar, a Trindade Santa nos
dá a Graça, de que é possível hoje mudar.
Que
em meio às alegrias e pecados Deus continue a escrever sua História de
Salvação em nossas vidas.
UIOGD et BMV
Pe.
Paulo Celso Demartini O. Cist. Prior da Abadia


Atualizado em -
15/10/06