Ano 19  -  São José do Rio Pardo - maio 2009 - nº 227

Rio recebe Dom Orani de braços abertos


Um dia histórico para a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Dez mil pessoas na Catedral Metropolitana, transmissão ao vivo pelas redes de TV católicas, autoridades civis e eclesiásticas de todo o país. A posse de Dom Orani João Tempesta, novo Arcebispo do Rio, foi o grande evento da Igreja Católica no domingo da Misericórdia, dia 19 de abril, p. p.

HOMILIA DA MISSA DE INÍCIO DE MINISTÉRIO

19 DE ABRIL DE 2009

CATEDRAL DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO

D. ORANI JOÃO TEMPESTA, O. CIST.

Abertura

A Paz esteja com todos!

Caríssimos irmãos e irmãs!

Permitam-me que as minhas primeiras palavras sejam de louvor e bendição a Deus nosso Pai, que nos enviou o Seu Filho Jesus Cristo como nosso Salvador e que nos conduz e ilumina com o Seu Espírito Santo!

A todos da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e os que nos veem pelos Meios de Comunicação Social a minha saudação de Paz!

Saudações

Excelentíssimo e Reverendíssimo Núncio Apostólico, D. Lorenzo Baldisseri;

Caríssimos Cardeais D. Eusébio Oscar Scheid, meu caro antecessor neste sólio; D. Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo; D. Eugênio de Araújo Sales, Arcebispo Emérito desta Arquidiocese

Meu caro irmão D.Vicente Joaquim Zico, meu predecessor em Belém do Pará

(na última sexta-feira foi a sua sábia palavra que iluminou o acontecimento da despedida de Belém – obrigado por isso e pela nossa convivência fraterna destes belos anos)

Presidente da CNBB D. Geraldo Lyrio Rocha, Arcebispo de Mariana

Presidente do Regional Leste 1

Bispos da Província Eclesiástica

Presidente do Regional Norte 2 – Bispos do Regional

Caríssimos Bispos Auxiliares, D. Dimas Lara Barbosa, Secretário Geral da CNBB; D. Assis Lopes, D. Wilson Tadeu Jonck, D. Edney Gouvea Mattoso, D. Antônio Augusto Dias Duarte, D. Edson de Castro Homem;

Irmãos Arcebispos e Bispos presentes

Representantes consulares dos países

Excelentíssimos membros do Judiciário Federal

Excelentíssimos Senadores da República

Excelentíssimos Deputados Federais do Rio de Janeiro e do Pará

Excelentíssimo Governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral

Excelentíssima Governadora do Estado do Pará, Ana Júlia Carepa

Excelentíssimo Prefeito Municipal do Rio de Janeiro, Eduardo Paes

Presidente da Assembléia Legislativa e demais deputados

Presidente da Câmara dos Vereadores e demais vereadores

Presidente do Tribunal de Justiça do Estado e demais membros do judiciário

 

Membros ou representações da Forças Militares

Caríssimos Presbíteros, Diáconos, Consagrados e Consagradas, Seminaristas da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, da Arquidiocese de Belém, da Diocese de São José do Rio Preto, da Diocese de São João da Boa Vista e das demais Arquidioceses e Dioceses aqui presentes.

Autoridades do Poder Executivo, Legislativo, Judiciário, Ministério Público e militares presentes ou representadas.

Querido e amado Povo de Deus presente nesta Catedral e também os que nos veem e ouvem pelos meios de Comunicação presentes, em especial os repórteres, jornalistas e demais comunicadores,

Uma saudação especial e agradecimento aos que transmitem ao vivo esta celebração, como a RedeVida de Televisão, Rádio e TV Canção Nova, Rádio e TV Nazaré de Belém do Pará, a Rádio Catedral do Rio de Janeiro e outros.

 

Quem sou e de onde venho

Venho como cristão, discípulo de Jesus Cristo, escolhido como Apóstolo para anunciar o Reino de Deus a todos.

Venho como cristão que sabe que toda terra é sua pátria e não se sente estrangeiro em nenhum lugar, mas, por outro lado, sabe que é sempre aquele que caminha para a pátria definitiva, não se esquecendo de que aqui o tempo é fugaz!

Venho de uma família onde a mistura de nacionalidades me fez experimentar a necessidade de unidade na diversidade. Por isso, em meus parentes aqui presentes – irmãs, sobrinhos, primos – abraço e rezo por todos os familiares, em especial pelos meus pais, irmãs e irmão que já partiram para a casa do Pai.

Venho de uma região marcada no passado pelo ciclo do café e que experimenta a brisa constante dos contrafortes da Mantiqueira e, nesse sentido, cumprimento os representantes aqui presentes, de maneira especial os da Paróquia São Roque, de São José do Rio Pardo, minha primeira experiência na missão evangelizadora, e de onde trago enormes e belas recordações que ainda hoje são presença em minha vida.

Venho da experiência de uma vida monástica, que me educou sobre a importância da vida comunitária e a necessidade de uma espiritualidade eclesial para que nossas ações sejam inspiradas na Palavra de Deus e no encontro com o Cristo Vivo. Não tenho como olvidar essa característica, que, longe de me afastar, me fez amar e sentir com a Igreja, na Oração e no Trabalho. A necessidade de uma vida em comunidade está na raiz de minha vocação e em minha experiência monástica. O carinho pela Abadia de Nossa Senhora de São Bernardo me faz desejar ao nosso terceiro Abade recém eleito e abençoado todas as luzes necessárias para que possa levar adiante essa nossa bela experiência monástica.

Venho do serviço a uma Igreja viva do Oeste Paulista – São José do Rio Preto, onde aprendi a necessidade de ouvir sempre e partilhar e olhar com carinho e amor todo o povo de Deus. A presença de tantos presbíteros, seminaristas, religiosas, consagrados e cristãos leigos demonstram os laços que nos unem e que Deus construiu na minha caminhada Diocesana. Alegro-me pela presença de tantos dessa minha primeira Diocese.

Venho de uma terra calorosa, não só pela proximidade do Equador, mas pelo seu povo moreno e amoroso que, além da fidelidade a Cristo e à Igreja, no meio de tantas dificuldades dá ao mundo um sinal grandioso de sua piedade popular no Círio de Nazaré, e que me fez aprofundar nas questões amazônidas e sentir de perto as necessidades, angústias e sonhos de um povo. Como esquecer aqueles que me cativaram e, consequentemente, se tornaram responsáveis pela minha caminhada futura? Sei que venho carregado pelas orações de milhões de paraenses e com o compromisso de continuarmos amigos para sempre! Continuem unidos e animados no trabalho de Evangelização! Obrigado pelo carinho, acolhimento e partilha!

Venho de uma experiência onde a importância da comunicação se injetou em minhas veias, quando os irmãos Bispos me escolheram para servir à Igreja do Brasil nessa área, juntamente com a cultura e a educação, já no segundo e último mandato nessa comissão episcopal da CNBB.

Venho de São José do Rio Pardo, minha terra natal; de São José do Rio Preto, minha primeira diocese, e do Belém do Pará, arquidiocese que servi até o momento.

Venho para tornar-me não só habitante do Rio de Janeiro, mas para viver a vida, a história, os sonhos e as lutas dos brasileiros que aqui fazem a sua morada.

Venho para servir a esta Igreja, após tantos ilustres bispos e arcebispos que fizeram e fazem a história eclesial desta região.

Venho para olhar o futuro junto com todo o povo e começar desde já a elaboração do novo plano de pastoral, dando graças a Deus pelo passado, e olhar comprometido para o futuro, sabendo que toda esta cidade quer ver na Igreja o sinal de tempos melhores.

Continuidade

A Diocese, como porção do Povo de Deus, entregue ao pastoreio de um Bispo juntamente com o seu presbitério, é uma dádiva que recebo das mãos de D. Eusébio com temor e confiança.

Eu acredito que a missão do Bispo Diocesano é de ser pastor de um povo e servir com alegria a todos, de tal forma que caminhemos juntos em busca da santidade. É claro que isso não exclui a administração e a disciplina necessárias para que tudo corra com ordem na casa do Senhor. Eu acredito também que a transição episcopal se faz recebendo, junto com o povo, também as conquistas e passos de uma comunidade. Por isso não há ruptura e sim uma caminhada que continua.

Não trago nenhum plano pré-concebido para a Pastoral ou para soluções de questionamentos que possa haver aqui nesta Igreja, embora tenha muitas experiências de coordenação da pastoral na Igreja desde o meu tempo de jovem padre.

Não trago também soluções prontas para os diversos casos, em especial as questões da violência, e sim abertura para o diálogo e reflexão que nos ajude a encontrar os melhores caminhos para a possível solução de problemas. É claro, também, que se trata de uma continuidade criativa, onde a contribuição e experiência pessoal trarão, sem dúvida, a minha contribuição para a Igreja que está no Rio de Janeiro.

Acolho com muita alegria e responsabilidade todas as entidades educacionais, culturais e de comunicação ligadas à Igreja do Rio de Janeiro, em especial à Pontifícia Universidade, lugar de cultura, formação e pesquisa no diálogo com a sociedade, os veículos de comunicação, como Rádio, Jornal, também Escolas, as diversas pastorais, movimentos, serviços da Arquidiocese e em especial toda a organização da Cúria Metropolitana.

Papa Bento XVI

Caríssimo D. Lorenzo Baldisseri, excelentíssimo Núncio Apostólico no Brasil: através de Vossa Excelência Reverendíssima peço encaminhar ao Santo Padre, o Papa Bento XVI, a minha unidade e fidelidade na caminhada da Igreja. Tenha certeza de que estaremos unidos na missão desafiadora de trabalharmos com criatividade pela evangelização em nossos tempos complexos, mas também cheios de esperança.

No dia 16 de abril, quinta-feira passada, foi o aniversário natalício do Santo Padre, e hoje, domingo "in Albis" e da Misericórdia, ocorre o quarto aniversário da sua eleição para o ministério de Pastor Universal da Igreja. É com gratidão que louvamos a Deus pela sua pessoa e missão, podendo contar sempre com as nossas orações!

Pude estar com Sua Santidade logo depois de minha nomeação para o Rio de Janeiro e pude ouvir dele mesmo o seu carinho e orações por esta querida e importante Arquidiocese, quando ele transmitiu a todos uma bênção especial.

A D. Eusébio e D. Eugênio

Quero saudar com muita alegria também D. Eusébio e D. Eugênio, aqui presentes, e que me precederam nesta missão, servindo esta Arquidiocese nesses últimos anos. Agradeço de coração o acolhimento de ambos por ocasião desta minha vinda para este serviço no Rio de Janeiro.

Agradeço a colaboração de todos os Bispos auxiliares, presbíteros, diáconos, seminaristas, consagrados e consagradas e todos os cristãos leigos que têm levado adiante a missão de evangelizar e catequizar diuturnamente.

A importante Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro poderá contar sempre com a presença de seus Arcebispos anteriores, com todas as prerrogativas necessárias para as celebrações nesta nossa sede, além das que já possuem pelo Cardinalato. Queremos uma transição marcada pela continuidade criativa para responder aos desafios deste século tão marcado pela violência, a miséria e a fome.

D. Eusébio, a Arquidiocese que o senhor me entregou para servir, que procura ter o rosto de Cristo, desejo continuar conduzindo com o báculo de pastor que vai à frente do rebanho, sendo fiel à tradição dos nossos irmãos bispos predecessores.

Tenho confiança em Deus que conduz a história e a Ele que ilumine, com o Seu Espírito, os caminhos desta missão que assumo.

Aproveito também para confirmar todos os cargos, conselho, colégio, cabido, responsáveis de pastorais e outros, para que deem continuidade aos trabalhos, até que não determinemos o contrário.

Província Eclesiástica

Com muito carinho acolho todos os irmãos Bispos desta Província Eclesiástica, aqui presentes, representados ou justificados. Agradeço de coração os que aqui servem a Igreja e que tão bem me receberam! Estamos às vésperas de nossa Assembléia Geral em Itaici e isso nos torna ainda mais próximos para juntos nos darmos as mãos a procura de soluções para melhor servirmos a todos.

A nossa Província Eclesiástica, juntamente com a de Niterói, tem uma grande responsabilidade diante da realidade religiosa-sócio-cultural-econômica deste nosso Estado do Rio de Janeiro. Através dos seus Apóstolos, os bispos, saúdo todas as pessoas que caminham e buscam a vida em cada Diocese de nossa Província, sabendo das tantas necessidades e lutas na caminhada de nosso povo.

Domingo da Misericórdia

Sei que muitos que hoje estão aqui chegaram logo de manhã para celebrar a Festa do Domingo da Divina Misericórdia. Quinta feira passada fui justamente a uma pequena Capela, construída diante de um dos canais de Belém, dedicada à Divina Misericórdia, para pedir para as pessoas que estavam se preparando para a Festa que rezassem pela minha nova missão que, por providência de Deus, começa nesse dia promulgado pelo Venerável Papa João Paulo II.

Que Santa Faustina, mística que se deixou invadir pelo mistério do amor divino, nascendo assim a espiritualidade centrada na Divina Misericórdia, interceda por todos nós e pela nossa missão!

Hoje, aqui, dentro dessa Festa, sabendo da necessidade que o mundo tem de perceber o coração de Deus que vem até as nossas maiores misérias humanas manifestar o seu amor, peço também a todos que estejamos unidos na oração e no trabalho para que esse anúncio, sentindo com as necessidades da Igreja, ressoe daqui desta Catedral para todos os rincões de nossa Arquidiocese.

Maria e o meu "sim"

Todas as minhas decisões tiveram em Maria a inspiração para responder o Sim a Deus, que me chamou através da Igreja. Desde inícios de minha vocação sacerdotal e religiosa até agora, quando foi para responder à nomeação do Santo Padre o Papa Bento XVI para servir a esta nossa Arquidiocese. Muitas vezes me vi dizendo a mesma resposta: como acontecerá isso? Será que tenho possibilidade? Mas, inspirado por Maria, desejo que minhas respostas ao Plano de Deus sejam sempre o "faça-se em mim segundo a tua palavra".

São Bernardo, em seu sermão sobre esse texto, medita que quando o "anjo retirou-se", a maravilha da encarnação se concretizou por obra do Espírito Santo. Também eu peço hoje ao Pai para que o Seu Espírito fecunde o ministério que hoje inicio com grande confiança aqui no Rio de Janeiro. Confio no Senhor que me chamou e até aqui me conduziu. Tenho certeza de que não irei ficar decepcionado.

Recordo com carinho todos os sinais marianos em minha vida desde a oração de criança diante da imagem de N. Sra. de Fátima antes e após a catequese na Igreja Matriz de São José do Rio Pardo; os pedidos diante da imagem peregrina de N. Sra. Aparecida na época da juventude na mesma cidade natal; o ingresso na ordem cisterciense que tem como padroeira Maria, e o costume de colocar em todas as abadias o nome de N. Sra. Recordo-me de que foi invocando o "sim" de Maria que o então Bispo Diocesano de S. João da Boa Vista me animou a dar o sim para o episcopado quando da minha nomeação para São José do Rio Preto.

É significativo lembrar que tanto para a nomeação para Belém como para o Rio de Janeiro sempre foi dentro de um clima Mariano, ou pelo local ou pelo evento. A experiência do Círio de Nazaré ficará marcada para sempre em minha vida e memória, como exemplo de um povo Mariano que ainda traz em sua cultura e formação esses sinais. O presente que recebi sexta-feira passada - a cópia da imagem de N. Sra. de Nazaré com o Manto do ano de 2007 estará sempre presente diante de mim atualizando esse clima e sinal.

Quiseram trazer também a imagem peregrina nesta celebração: a mesma que comanda o Círio de Nazaré quando mais de dois milhões de pessoas no mesmo dia saem pelas ruas de Belém. Sob a proteção da mãe que sempre me apresenta o Filho como o Salvador é para mim conforto e confiança. Obrigado ao Santuário de Nazaré, Padres Barnabitas e Diretoria do Círio por este sinal em minha vida!

E outros fatos poderiam ainda recordar e citar dessa estrela do mar colocada no céu de minha vida para que no meio do mar eu sempre encontre o caminho para Cristo, o porto para onde nos dirigimos.

Nesse tempo de tantos ataques, intolerâncias e incompreensões, nós olhamos para as imagens que representam Maria e recordamos da Mãe de Jesus que nos acompanha e intercede por nós.

A unidade na diversidade

Ao iniciar minha missão neste segundo domingo da Páscoa e também da Misericórdia, alegro-me por escutar a voz do Senhor a nos dizer nos Atos dos Apóstolos: "a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma". Mesmo que as interpretações exegéticas possam colocar este texto mais como anúncio do futuro do que talvez uma realidade da época, é, no entanto, Palavra de Deus para nós. É uma direção que espero que sigamos: a da unidade! Muitas vezes falaremos sobre esse assunto que é fundamental em nossa vida eclesial, pois disso depende a fé – "para que o mundo creia"!

Venho com um lema que me tem acompanhado desde a juventude: Que todos sejam um! Ele manifesta a minha convicção de que na diversidade de dons e carismas que temos na Igreja, temos uma grande riqueza, mas que na unidade entre todos nós temos a própria razão da evangelização – para que o mundo creia! Estou convicto de que, se não formos unidos, todos os nossos trabalhos, por mais precisos e amplos que forem, serão insuficientes para a nossa missão evangelizadora. Por isso, convoco todos os padres, diáconos, consagrados, consagradas, religiosas e religiosos, seminaristas, agentes de pastoral, movimentos, comunidades, pastorais de nossa Arquidiocese a se empenharem na busca de uma unidade afetiva e efetiva. Dessa forma, com uma vida convertida, tenho certeza de que seremos sinais de Jesus Cristo na história de hoje.

Mas essa unidade é também para o nosso tempo tão violento e intolerante. É possível o ecumenismo! É possível o diálogo religioso! É possível o diálogo com as culturas! É possível o diálogo com as pessoas de boa vontade que querem construir um mundo mais justo e humano! Na verdade todos nós nos encontramos na construção do bem comum. A nossa sociedade sofre uma carência enorme dessa unidade e nós, cristãos, somos chamados a ser sinais de que tudo isso é possível.

A questão social

É importante ressaltar que nos Atos dos Apóstolos a unidade é anunciada como partilha de bens: "tudo entre eles era posto em comum"! Nesse nosso mundo de tantas injustiças e individualismo, a fé cristã e católica nos faz ser sinais de outro mundo, onde reinam a fraternidade e o amor. Eis o grande desafio cristão de nossos tempos! Muitos tentam por várias fórmulas encontrar esse caminho, nós o trilhamos pela fé!

Também somos chamados a viver a nossa fé no amor mútuo: "podemos saber que amamos os filhos de Deus quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos", recorda-nos hoje a primeira carta de João, e, nesse sentido, como cristãos, não podemos deixar de, ao anunciar o Evangelho, estarmos comprometidos com o nosso próximo e com um trabalho de presença com ações concretas nesta sociedade. Viver os mandamentos, amarmos a Deus e, consequentemente, amarmos o próximo, como nos recorda a Palavra hoje, lembrando-nos de como Cristo explicou o que significa "amar o próximo" na parábola do bom samaritano.

A Campanha da Fraternidade deste ano coloca toda a sociedade diante de decisões importantíssimas que supõem muita criatividade e ações a curto, médio e longo prazo, e que procurem soluções para a paz social diante do clamor que vem de todos os cantos por tempos melhores.

Sabemos, porém, que além das necessidades da justiça social, o coração da pessoa humana tem também necessidade de encontrar o verdadeiro sentido para sua vida no necessário equilíbrio, quando não pode faltar a busca do transcendente, que para nós é o Encontro com Pai revelado pelo Cristo Senhor.

A evangelização é também a luta pela dignidade da pessoa, a partilha com os mais necessitados, a procura da justiça e da paz entre todos. Não podemos nos conformar com a injustiça, a fome e a miséria em nosso país – somos chamados a construir a "civilização do amor". Neste mundo tão desigual somos chamados a "fazer a diferença". A nossa responsabilidade é enorme diante dos desafios sociais, e acreditamos que é possível um novo Brasil que queremos construir.

Discípulos Missionários

O Evangelho deste domingo nos aponta para colocarmos em prática o envio para semearmos a paz - "Como o Pai me enviou, também eu vos envio", e isso traz presente todo o histórico do "evento" de Aparecida, que se traduziu num dos documentos mais importantes deste início de milênio, recordando-nos que, como discípulos, somos também missionários para anunciar a todos, com renovado ardor, o Evangelho do Cristo. A Missão continental pedida pelo Documento de Aparecida deve se traduzir em atitudes concretas em nossas vidas, paróquias e arquidiocese. Aqui no Brasil estamos unidos ao projeto da CNBB "O Brasil na Missão Continental".

Nesse sentido, irmãos e irmãs, não podemos deixar para depois a necessária evangelização de nosso tempo: se somos discípulos, somos também missionários. Diante de nossa responsabilidade frente àqueles que nós batizamos não podemos nos acomodar apenas aguardando as pessoas aparecerem em nossas igrejas, salões ou secretarias. Somos chamados a ir ao encontro dos irmãos onde eles estão!

Aparecida é um dos documentos que, no lugar de comemorar um evento, traça um olhar prospectivo diante de uma realidade em mudança: a mudança de época, e que é principalmente cultural. Trabalhando na Comissão Episcopal para a Cultura, Educação e Comunicação da CNBB sei o que significa o diálogo com as fronteiras e onde começa uma nova linguagem que traz consigo uma nova mentalidade e que, muitas vezes, não contemplam a questão da fé.

Duas músicas sempre me veem à mente nessa missão: "Leva-me para aonde os homens necessitem tuas palavras, tua força de viver", e também: "onde mandar eu irei, teu amor não posso ocultar que Jesus é o nosso Salvador", que correspondem a projetos de missão diocesana.

Povo de Deus desta querida Arquidiocese – o tempo urge e é mais do que necessário calçarmos as sandálias do peregrino, e que, com o bordão de pastor, saiamos por todos os cantos e situações para anunciar uma boa notícia de salvação a todos que, com certeza, traz junto também a construção do mundo onde faltem os valores do respeito à pessoa humana, à vida e o anúncio do perdão e da fraternidade.

Perdão e reconciliação

Um outro sinal que aparece no Evangelho deste domingo é o perdão, a misericórdia que hoje celebramos: "a quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados"! Somos chamados a ser uma Igreja que reconcilia, perdoa, ama e, por isso mesmo, misericordiosa, e que, mesmo sem renunciar aos princípios que nos norteiam, antes de tudo anuncia a Boa Nova ao mundo com alegria e coragem!

Estamos vivendo momentos difíceis em que muitas vezes o desejo de vingança e de ódio se torna uma presença constante em nossos noticiários e situações de violência. É evidente que a sociedade tem a missão de exercer a justiça diante das situações de violação da lei, mas o nosso coração é chamado a trabalhar pela conversão e pelo perdão. Acreditamos que o ser humano tem possibilidade de mudar e se transformar. A violência só gera violência. O perdão e a paz nos desarmam e nos colocam a caminho na unidade.

A paz

A paz desejada e almejada por todos neste tempo pascal é anunciada abundantemente pelo Cristo Ressuscitado. Hoje mesmo encontramo-la anunciada por três vezes no Evangelho. Acreditamos que como Igreja somos esses anunciadores dessa Paz que queremos testemunhar pela nossa vida.

A Campanha da Fraternidade recordou-nos que diante de toda a sociedade a paz também é fruto da justiça. Nessa união de dom de Deus, de celebração pascal e da justiça aplicada somos as pessoas que diante da sociedade têm esperança e a testemunham com alegria.

Abertura do Ano Catequético

Neste domingo da Misericórdia, a Igreja no Brasil abre oficialmente o Ano Catequético Nacional com o tema: "Catequese, caminho para o discipulado" que completa, sem dúvida, o desejo de Aparecida, de formar verdadeiros discípulos de Jesus. Nossa meta é constatar após o tempo da catequese inicial a Igreja possa contar com cristãos adultos, verdadeiros discípulos missionários, anunciando e testemunhando a Verdadeira Vida para o Mundo.

O lema deste ano também nos questiona em nosso modo de ser: Nosso Coração arde quando Ele fala e explica as Escrituras e parte o Pão. A nossa maneira de pregar e anunciar, além das verdades necessárias, deve também fazer "arder" os corações das pessoas, de tal forma que aprendam não apenas as idéias, mas principalmente vivam como alegres cristãos. Minha saudação a todos que fazem acontecer neste ano esse importante momento catequético aqui em nossa Arquidiocese.

Os primeiros passos

Meus primeiros passos serão ir ao encontro de todos para conhecer e viver a vida do povo de Deus que aqui se congrega, para ouvir suas histórias, tradições e sonhos, para compartilhar seus sofrimentos e dores e buscar a esperança na Ressurreição de Cristo.

Desejo conhecer não só a história da cidade, mas também a vida e as experiências de cada um, de maneira especial dos colaboradores mais próximos, que são os bispos auxiliares, presbíteros e diáconos. Abram todos os seus corações para a partilha da vida e para a comunhão de vida entre nós. Por experiência lhes digo: vale a pena!

Irmãos e irmãs, filhos desta grande Arquidiocese: o nosso primeiro trabalho será a elaboração do novo Plano de Pastoral, que deverá retratar as necessidades de todos na missão de pastorear essa grande cidade, que tem o direito de ver em nós sinais da presença de Deus e suas consequências!

Convido a todos e a todas para que nos irmanemos, e todos tragam seus dons e carismas, como muitos já têm feito, na elaboração do direcionamento pastoral que agora iniciamos. Nesta época de mudança da sociedade não podemos nos omitir diante dos desafios que se nos apresentam a cada momento.

Com os olhos voltados para o horizonte, aqui nesta bela Baía de Guanabara, vejo o "trigo" pronto para a colheita e exorto a todos a uma vida de comunhão com Deus e com os irmãos nessa grande epopéia que vivemos com a graça de Deus.

Final

Caríssimos Bispos, Presbíteros, Diáconos, Religiosos, Religiosas, Consagrados, seminaristas, agentes de pastoral, cristãos leigos e todas as pessoas de boa vontade!

Excelentíssimas autoridades presentes ou representadas!

Caríssimo povo de Deus desta querida Arquidiocese!

Desde a minha nomeação tantos me falaram de vocês, do carinho, da fé, do entusiasmo! Agora eu venho me unir a vocês para caminharmos juntos. Para continuarmos juntos, inspirados por São Sebastião, a testemunhar a Fé diante das contradições do mundo de hoje, e por Santana, que nos inspira a descobrirmos na fé e na fidelidade dos antepassados as luzes para o nosso caminhar hoje.

Desde o momento de minha nomeação eu coloquei espaço em meu coração para amá-los e caminhar com vocês. Agora o declaro com muita alegria!

Que o Cristo Redentor, que de braços abertos acolhe a todos em seu Santuário Arquidiocesano, nos faça experimentar as bênçãos de Deus para todos os que aqui residem ou que por aqui passam. Que o povo assim abençoado tenha a paz em suas fronteiras e seja testemunho do Ressuscitado.

Com esses pensamentos eu me apresento à Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro no seguimento e anúncio de Jesus Cristo, unido ao Papa e aos irmãos Bispos, para iniciar este caminho com esperança e ardor renovados.

Convido todos vocês para que façam com que a medida do amor seja amar sem medida, seja amar por amar, como nos lembra São Bernardo. O cristão, é cidadão de todos os países, de todas as nações e cidadão do Reino, é também agora cidadão do Rio de Janeiro! Como uma vez me disse o Sr. Núncio Apostólico aqui presente: o Bispo não se pertence – ele é de todos!

Assim, hoje, mais que uma posse que o Bispo toma de sua Arquidiocese, é o povo que toma posse de seu Bispo que veio para servir a todos na alegria!

Eis-me aqui!

Rio de Janeiro, 19 de abril de 2009, segundo Domingo da Páscoa, domingo da Misericórdia, início do meu ministério na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.

D. Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro

 

 

Atualizado em - 17/08/09

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