Rio recebe Dom Orani de braços
abertos

Um dia histórico para a
Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Dez mil pessoas na
Catedral Metropolitana, transmissão ao vivo pelas redes de TV católicas,
autoridades civis e eclesiásticas de todo o país. A posse de Dom Orani
João Tempesta, novo Arcebispo do Rio, foi o grande evento da Igreja
Católica no domingo da Misericórdia, dia 19 de abril, p. p.
HOMILIA DA MISSA DE INÍCIO DE MINISTÉRIO
19 DE ABRIL DE 2009
CATEDRAL DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO
D. ORANI JOÃO TEMPESTA, O. CIST.
Abertura

A Paz esteja com todos!
Caríssimos irmãos e irmãs!
Permitam-me que as minhas
primeiras palavras sejam de louvor e bendição a Deus nosso Pai, que nos
enviou o Seu Filho Jesus Cristo como nosso Salvador e que nos conduz e
ilumina com o Seu Espírito Santo!
A todos da Arquidiocese de
São Sebastião do Rio de Janeiro e os que nos veem pelos Meios de
Comunicação Social a minha saudação de Paz!
Saudações
Excelentíssimo e
Reverendíssimo Núncio Apostólico, D. Lorenzo Baldisseri;
Caríssimos Cardeais D.
Eusébio Oscar Scheid, meu caro antecessor neste sólio; D. Odilo Pedro
Scherer, Arcebispo de São Paulo; D. Eugênio de Araújo Sales, Arcebispo
Emérito desta Arquidiocese
Meu caro irmão D.Vicente
Joaquim Zico, meu predecessor em Belém do Pará
(na última sexta-feira foi
a sua sábia palavra que iluminou o acontecimento da despedida de Belém –
obrigado por isso e pela nossa convivência fraterna destes belos anos)
Presidente da CNBB D.
Geraldo Lyrio Rocha, Arcebispo de Mariana
Presidente do Regional
Leste 1
Bispos da Província
Eclesiástica
Presidente do Regional
Norte 2 – Bispos do Regional
Caríssimos Bispos
Auxiliares, D. Dimas Lara Barbosa, Secretário Geral da CNBB; D. Assis
Lopes, D. Wilson Tadeu Jonck, D. Edney Gouvea Mattoso, D. Antônio
Augusto Dias Duarte, D. Edson de Castro Homem;
Irmãos Arcebispos e Bispos
presentes
Representantes consulares
dos países
Excelentíssimos membros do
Judiciário Federal
Excelentíssimos Senadores
da República
Excelentíssimos Deputados
Federais do Rio de Janeiro e do Pará
Excelentíssimo Governador
do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral
Excelentíssima Governadora
do Estado do Pará, Ana Júlia Carepa
Excelentíssimo Prefeito
Municipal do Rio de Janeiro, Eduardo Paes
Presidente da Assembléia
Legislativa e demais deputados
Presidente da Câmara dos
Vereadores e demais vereadores
Presidente do Tribunal de
Justiça do Estado e demais membros do judiciário
Membros ou representações da Forças Militares
Caríssimos Presbíteros,
Diáconos, Consagrados e Consagradas, Seminaristas da Arquidiocese de São
Sebastião do Rio de Janeiro, da Arquidiocese de Belém, da Diocese de São
José do Rio Preto, da Diocese de São João da Boa Vista e das demais
Arquidioceses e Dioceses aqui presentes.
Autoridades do Poder
Executivo, Legislativo, Judiciário, Ministério Público e militares
presentes ou representadas.
Querido e amado Povo de
Deus presente nesta Catedral e também os que nos veem e ouvem pelos
meios de Comunicação presentes, em especial os repórteres, jornalistas e
demais comunicadores,
Uma saudação especial e
agradecimento aos que transmitem ao vivo esta celebração, como a
RedeVida de Televisão, Rádio e TV Canção Nova, Rádio e TV Nazaré de
Belém do Pará, a Rádio Catedral do Rio de Janeiro e outros.
Quem sou e de onde venho
Venho como cristão,
discípulo de Jesus Cristo, escolhido como Apóstolo para anunciar o Reino
de Deus a todos.
Venho como cristão que sabe
que toda terra é sua pátria e não se sente estrangeiro em nenhum lugar,
mas, por outro lado, sabe que é sempre aquele que caminha para a pátria
definitiva, não se esquecendo de que aqui o tempo é fugaz!
Venho de uma família onde a
mistura de nacionalidades me fez experimentar a necessidade de unidade
na diversidade. Por isso, em meus parentes aqui presentes – irmãs,
sobrinhos, primos – abraço e rezo por todos os familiares, em especial
pelos meus pais, irmãs e irmão que já partiram para a casa do Pai.
Venho de uma região marcada
no passado pelo ciclo do café e que experimenta a brisa constante dos
contrafortes da Mantiqueira e, nesse sentido, cumprimento os
representantes aqui presentes, de maneira especial os da Paróquia São
Roque, de São José do Rio Pardo, minha primeira experiência na missão
evangelizadora, e de onde trago enormes e belas recordações que ainda
hoje são presença em minha vida.

Venho da experiência de uma
vida monástica, que me educou sobre a importância da vida comunitária e
a necessidade de uma espiritualidade eclesial para que nossas ações
sejam inspiradas na Palavra de Deus e no encontro com o Cristo Vivo. Não
tenho como olvidar essa característica, que, longe de me afastar, me fez
amar e sentir com a Igreja, na Oração e no Trabalho. A necessidade de
uma vida em comunidade está na raiz de minha vocação e em minha
experiência monástica. O carinho pela Abadia de Nossa Senhora de São
Bernardo me faz desejar ao nosso terceiro Abade recém eleito e abençoado
todas as luzes necessárias para que possa levar adiante essa nossa bela
experiência monástica.
Venho do serviço a uma
Igreja viva do Oeste Paulista – São José do Rio Preto, onde aprendi a
necessidade de ouvir sempre e partilhar e olhar com carinho e amor todo
o povo de Deus. A presença de tantos presbíteros, seminaristas,
religiosas, consagrados e cristãos leigos demonstram os laços que nos
unem e que Deus construiu na minha caminhada Diocesana. Alegro-me pela
presença de tantos dessa minha primeira Diocese.
Venho de uma terra
calorosa, não só pela proximidade do Equador, mas pelo seu povo moreno e
amoroso que, além da fidelidade a Cristo e à Igreja, no meio de tantas
dificuldades dá ao mundo um sinal grandioso de sua piedade popular no
Círio de Nazaré, e que me fez aprofundar nas questões amazônidas e
sentir de perto as necessidades, angústias e sonhos de um povo. Como
esquecer aqueles que me cativaram e, consequentemente, se tornaram
responsáveis pela minha caminhada futura? Sei que venho carregado pelas
orações de milhões de paraenses e com o compromisso de continuarmos
amigos para sempre! Continuem unidos e animados no trabalho de
Evangelização! Obrigado pelo carinho, acolhimento e partilha!
Venho de uma experiência
onde a importância da comunicação se injetou em minhas veias, quando os
irmãos Bispos me escolheram para servir à Igreja do Brasil nessa área,
juntamente com a cultura e a educação, já no segundo e último mandato
nessa comissão episcopal da CNBB.
Venho de São José do Rio
Pardo, minha terra natal; de São José do Rio Preto, minha primeira
diocese, e do Belém do Pará, arquidiocese que servi até o momento.
Venho para tornar-me não só
habitante do Rio de Janeiro, mas para viver a vida, a história, os
sonhos e as lutas dos brasileiros que aqui fazem a sua morada.
Venho para servir a esta
Igreja, após tantos ilustres bispos e arcebispos que fizeram e fazem a
história eclesial desta região.
Venho para olhar o futuro
junto com todo o povo e começar desde já a elaboração do novo plano de
pastoral, dando graças a Deus pelo passado, e olhar comprometido para o
futuro, sabendo que toda esta cidade quer ver na Igreja o sinal de
tempos melhores.
Continuidade
A Diocese, como porção do
Povo de Deus, entregue ao pastoreio de um Bispo juntamente com o seu
presbitério, é uma dádiva que recebo das mãos de D. Eusébio com temor e
confiança.
Eu acredito que a missão do
Bispo Diocesano é de ser pastor de um povo e servir com alegria a todos,
de tal forma que caminhemos juntos em busca da santidade. É claro que
isso não exclui a administração e a disciplina necessárias para que tudo
corra com ordem na casa do Senhor. Eu acredito também que a transição
episcopal se faz recebendo, junto com o povo, também as conquistas e
passos de uma comunidade. Por isso não há ruptura e sim uma caminhada
que continua.
Não trago nenhum plano
pré-concebido para a Pastoral ou para soluções de questionamentos que
possa haver aqui nesta Igreja, embora tenha muitas experiências de
coordenação da pastoral na Igreja desde o meu tempo de jovem padre.
Não trago também soluções
prontas para os diversos casos, em especial as questões da violência, e
sim abertura para o diálogo e reflexão que nos ajude a encontrar os
melhores caminhos para a possível solução de problemas. É claro, também,
que se trata de uma continuidade criativa, onde a contribuição e
experiência pessoal trarão, sem dúvida, a minha contribuição para a
Igreja que está no Rio de Janeiro.
Acolho com muita alegria e
responsabilidade todas as entidades educacionais, culturais e de
comunicação ligadas à Igreja do Rio de Janeiro, em especial à Pontifícia
Universidade, lugar de cultura, formação e pesquisa no diálogo com a
sociedade, os veículos de comunicação, como Rádio, Jornal, também
Escolas, as diversas pastorais, movimentos, serviços da Arquidiocese e
em especial toda a organização da Cúria Metropolitana.
Papa Bento XVI

Caríssimo D. Lorenzo
Baldisseri, excelentíssimo Núncio Apostólico no Brasil: através de Vossa
Excelência Reverendíssima peço encaminhar ao Santo Padre, o Papa Bento
XVI, a minha unidade e fidelidade na caminhada da Igreja. Tenha certeza
de que estaremos unidos na missão desafiadora de trabalharmos com
criatividade pela evangelização em nossos tempos complexos, mas também
cheios de esperança.
No dia 16 de abril,
quinta-feira passada, foi o aniversário natalício do Santo Padre, e
hoje, domingo "in Albis" e da Misericórdia, ocorre o quarto aniversário
da sua eleição para o ministério de Pastor Universal da Igreja. É com
gratidão que louvamos a Deus pela sua pessoa e missão, podendo contar
sempre com as nossas orações!
Pude estar com Sua
Santidade logo depois de minha nomeação para o Rio de Janeiro e pude
ouvir dele mesmo o seu carinho e orações por esta querida e importante
Arquidiocese, quando ele transmitiu a todos uma bênção especial.
A D. Eusébio e D. Eugênio
Quero saudar com muita
alegria também D. Eusébio e D. Eugênio, aqui presentes, e que me
precederam nesta missão, servindo esta Arquidiocese nesses últimos anos.
Agradeço de coração o acolhimento de ambos por ocasião desta minha vinda
para este serviço no Rio de Janeiro.
Agradeço a colaboração de
todos os Bispos auxiliares, presbíteros, diáconos, seminaristas,
consagrados e consagradas e todos os cristãos leigos que têm levado
adiante a missão de evangelizar e catequizar diuturnamente.
A importante Arquidiocese
de São Sebastião do Rio de Janeiro poderá contar sempre com a presença
de seus Arcebispos anteriores, com todas as prerrogativas necessárias
para as celebrações nesta nossa sede, além das que já possuem pelo
Cardinalato. Queremos uma transição marcada pela continuidade criativa
para responder aos desafios deste século tão marcado pela violência, a
miséria e a fome.
D. Eusébio, a Arquidiocese
que o senhor me entregou para servir, que procura ter o rosto de Cristo,
desejo continuar conduzindo com o báculo de pastor que vai à frente do
rebanho, sendo fiel à tradição dos nossos irmãos bispos predecessores.
Tenho confiança em Deus que
conduz a história e a Ele que ilumine, com o Seu Espírito, os caminhos
desta missão que assumo.
Aproveito também para
confirmar todos os cargos, conselho, colégio, cabido, responsáveis de
pastorais e outros, para que deem continuidade aos trabalhos, até que
não determinemos o contrário.
Província Eclesiástica
Com muito carinho acolho
todos os irmãos Bispos desta Província Eclesiástica, aqui presentes,
representados ou justificados. Agradeço de coração os que aqui servem a
Igreja e que tão bem me receberam! Estamos às vésperas de nossa
Assembléia Geral em Itaici e isso nos torna ainda mais próximos para
juntos nos darmos as mãos a procura de soluções para melhor servirmos a
todos.
A nossa Província
Eclesiástica, juntamente com a de Niterói, tem uma grande
responsabilidade diante da realidade religiosa-sócio-cultural-econômica
deste nosso Estado do Rio de Janeiro. Através dos seus Apóstolos, os
bispos, saúdo todas as pessoas que caminham e buscam a vida em cada
Diocese de nossa Província, sabendo das tantas necessidades e lutas na
caminhada de nosso povo.
Domingo da Misericórdia
Sei que muitos que hoje
estão aqui chegaram logo de manhã para celebrar a Festa do Domingo da
Divina Misericórdia. Quinta feira passada fui justamente a uma pequena
Capela, construída diante de um dos canais de Belém, dedicada à Divina
Misericórdia, para pedir para as pessoas que estavam se preparando para
a Festa que rezassem pela minha nova missão que, por providência de
Deus, começa nesse dia promulgado pelo Venerável Papa João Paulo II.
Que Santa Faustina, mística
que se deixou invadir pelo mistério do amor divino, nascendo assim a
espiritualidade centrada na Divina Misericórdia, interceda por todos nós
e pela nossa missão!
Hoje, aqui, dentro dessa
Festa, sabendo da necessidade que o mundo tem de perceber o coração de
Deus que vem até as nossas maiores misérias humanas manifestar o seu
amor, peço também a todos que estejamos unidos na oração e no trabalho
para que esse anúncio, sentindo com as necessidades da Igreja, ressoe
daqui desta Catedral para todos os rincões de nossa Arquidiocese.
Maria e o meu "sim"
Todas as minhas decisões
tiveram em Maria a inspiração para responder o Sim a Deus, que me chamou
através da Igreja. Desde inícios de minha vocação sacerdotal e religiosa
até agora, quando foi para responder à nomeação do Santo Padre o Papa
Bento XVI para servir a esta nossa Arquidiocese. Muitas vezes me vi
dizendo a mesma resposta: como acontecerá isso? Será que tenho
possibilidade? Mas, inspirado por Maria, desejo que minhas respostas ao
Plano de Deus sejam sempre o "faça-se em mim segundo a tua palavra".
São Bernardo, em seu sermão
sobre esse texto, medita que quando o "anjo retirou-se", a maravilha da
encarnação se concretizou por obra do Espírito Santo. Também eu peço
hoje ao Pai para que o Seu Espírito fecunde o ministério que hoje inicio
com grande confiança aqui no Rio de Janeiro. Confio no Senhor que me
chamou e até aqui me conduziu. Tenho certeza de que não irei ficar
decepcionado.
Recordo com carinho todos
os sinais marianos em minha vida desde a oração de criança diante da
imagem de N. Sra. de Fátima antes e após a catequese na Igreja Matriz de
São José do Rio Pardo; os pedidos diante da imagem peregrina de N. Sra.
Aparecida na época da juventude na mesma cidade natal; o ingresso na
ordem cisterciense que tem como padroeira Maria, e o costume de colocar
em todas as abadias o nome de N. Sra. Recordo-me de que foi invocando o
"sim" de Maria que o então Bispo Diocesano de S. João da Boa Vista me
animou a dar o sim para o episcopado quando da minha nomeação para São
José do Rio Preto.
É significativo lembrar que
tanto para a nomeação para Belém como para o Rio de Janeiro sempre foi
dentro de um clima Mariano, ou pelo local ou pelo evento. A experiência
do Círio de Nazaré ficará marcada para sempre em minha vida e memória,
como exemplo de um povo Mariano que ainda traz em sua cultura e formação
esses sinais. O presente que recebi
sexta-feira passada - a cópia da imagem de N. Sra. de Nazaré com o Manto
do ano de 2007 estará sempre presente diante de mim atualizando esse
clima e sinal.
Quiseram trazer também a
imagem peregrina nesta celebração: a mesma que comanda o Círio de Nazaré
quando mais de dois milhões de pessoas no mesmo dia saem pelas ruas de
Belém. Sob a proteção da mãe que sempre me apresenta o Filho como o
Salvador é para mim conforto e confiança. Obrigado ao Santuário de
Nazaré, Padres Barnabitas e Diretoria do Círio por este sinal em minha
vida!
E outros fatos poderiam
ainda recordar e citar dessa estrela do mar colocada no céu de minha
vida para que no meio do mar eu sempre encontre o caminho para Cristo, o
porto para onde nos dirigimos.
Nesse tempo de tantos
ataques, intolerâncias e incompreensões, nós olhamos para as imagens que
representam Maria e recordamos da Mãe de Jesus que nos acompanha e
intercede por nós.
A unidade na diversidade
Ao iniciar minha missão
neste segundo domingo da Páscoa e também da Misericórdia, alegro-me por
escutar a voz do Senhor a nos dizer nos Atos dos Apóstolos: "a multidão
dos fiéis era um só coração e uma só alma". Mesmo que as interpretações
exegéticas possam colocar este texto mais como anúncio do futuro do que
talvez uma realidade da época, é, no entanto, Palavra de Deus para nós.
É uma direção que espero que sigamos: a da unidade! Muitas vezes
falaremos sobre esse assunto que é fundamental em nossa vida eclesial,
pois disso depende a fé – "para que o mundo creia"!
Venho com um lema que me
tem acompanhado desde a juventude: Que todos sejam um! Ele
manifesta a minha convicção de que na diversidade de dons e carismas que
temos na Igreja, temos uma grande riqueza, mas que na unidade entre
todos nós temos a própria razão da evangelização – para que o mundo
creia! Estou convicto de que, se não formos unidos, todos os nossos
trabalhos, por mais precisos e amplos que forem, serão insuficientes
para a nossa missão evangelizadora. Por isso, convoco todos os padres,
diáconos, consagrados, consagradas, religiosas e religiosos,
seminaristas, agentes de pastoral, movimentos, comunidades, pastorais de
nossa Arquidiocese a se empenharem na busca de uma unidade afetiva e
efetiva. Dessa forma, com uma vida convertida, tenho certeza de que
seremos sinais de Jesus Cristo na história de hoje.
Mas essa unidade é também
para o nosso tempo tão violento e intolerante. É possível o ecumenismo!
É possível o diálogo religioso! É possível o diálogo com as culturas! É
possível o diálogo com as pessoas de boa vontade que querem construir um
mundo mais justo e humano! Na verdade todos nós nos encontramos na
construção do bem comum. A nossa sociedade sofre uma carência enorme
dessa unidade e nós, cristãos, somos chamados a ser sinais de que tudo
isso é possível.

A questão social
É importante ressaltar que
nos Atos dos Apóstolos a unidade é anunciada como partilha de bens:
"tudo entre eles era posto em comum"! Nesse nosso mundo de tantas
injustiças e individualismo, a fé cristã e católica nos faz ser sinais
de outro mundo, onde reinam a fraternidade e o amor. Eis o grande
desafio cristão de nossos tempos! Muitos tentam por várias fórmulas
encontrar esse caminho, nós o trilhamos pela fé!
Também somos chamados a
viver a nossa fé no amor mútuo: "podemos saber que amamos os filhos de
Deus quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos", recorda-nos
hoje a primeira carta de João, e, nesse sentido, como cristãos, não
podemos deixar de, ao anunciar o Evangelho, estarmos comprometidos com o
nosso próximo e com um trabalho de presença com ações concretas nesta
sociedade. Viver os mandamentos, amarmos a Deus e, consequentemente,
amarmos o próximo, como nos recorda a Palavra hoje, lembrando-nos de
como Cristo explicou o que significa "amar o próximo" na parábola do bom
samaritano.
A Campanha da Fraternidade
deste ano coloca toda a sociedade diante de decisões importantíssimas
que supõem muita criatividade e ações a curto, médio e longo prazo, e
que procurem soluções para a paz social diante do clamor que vem de
todos os cantos por tempos melhores.
Sabemos, porém, que além
das necessidades da justiça social, o coração da pessoa humana tem
também necessidade de encontrar o verdadeiro sentido para sua vida no
necessário equilíbrio, quando não pode faltar a busca do transcendente,
que para nós é o Encontro com Pai revelado pelo Cristo Senhor.
A evangelização é também a
luta pela dignidade da pessoa, a partilha com os mais necessitados, a
procura da justiça e da paz entre todos. Não podemos nos conformar com a
injustiça, a fome e a miséria em nosso país – somos chamados a construir
a "civilização do amor". Neste mundo tão desigual somos chamados a
"fazer a diferença". A nossa responsabilidade é enorme diante dos
desafios sociais, e acreditamos que é possível um novo Brasil que
queremos construir.
Discípulos Missionários
O Evangelho deste domingo
nos aponta para colocarmos em prática o envio para semearmos a paz -
"Como o Pai me enviou, também eu vos envio", e isso traz presente todo o
histórico do "evento" de Aparecida, que se traduziu num dos documentos
mais importantes deste início de milênio, recordando-nos que, como
discípulos, somos também missionários para anunciar a todos, com
renovado ardor, o Evangelho do Cristo. A Missão continental pedida pelo
Documento de Aparecida deve se traduzir em atitudes concretas em nossas
vidas, paróquias e arquidiocese. Aqui no Brasil estamos unidos ao
projeto da CNBB "O Brasil na Missão Continental".
Nesse sentido, irmãos e
irmãs, não podemos deixar para depois a necessária evangelização de
nosso tempo: se somos discípulos, somos também missionários. Diante de
nossa responsabilidade frente àqueles que nós batizamos não podemos nos
acomodar apenas aguardando as pessoas aparecerem em nossas igrejas,
salões ou secretarias. Somos chamados a ir ao encontro dos irmãos onde
eles estão!
Aparecida é um dos
documentos que, no lugar de comemorar um evento, traça um olhar
prospectivo diante de uma realidade em mudança: a mudança de época,
e que é principalmente cultural. Trabalhando na Comissão Episcopal
para a Cultura, Educação e Comunicação da CNBB sei o que significa o
diálogo com as fronteiras e onde começa uma nova linguagem que traz
consigo uma nova mentalidade e que, muitas vezes, não contemplam a
questão da fé.
Duas músicas sempre me veem à
mente nessa missão: "Leva-me para aonde os homens necessitem tuas palavras,
tua força de viver", e também: "onde mandar eu irei, teu amor não posso
ocultar que Jesus é o nosso Salvador", que correspondem a projetos de missão
diocesana.
Povo de Deus desta querida
Arquidiocese – o tempo urge e é mais do que necessário calçarmos as
sandálias do peregrino, e que, com o bordão de pastor, saiamos por todos os
cantos e situações para anunciar uma boa notícia de salvação a todos que,
com certeza, traz junto também a construção do mundo onde faltem os valores
do respeito à pessoa humana, à vida e o anúncio do perdão e da fraternidade.
Perdão e reconciliação
Um outro sinal que aparece no
Evangelho deste domingo é o perdão, a misericórdia que hoje celebramos: "a
quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados"! Somos chamados a ser
uma Igreja que reconcilia, perdoa, ama e, por isso mesmo, misericordiosa, e
que, mesmo sem renunciar aos princípios que nos norteiam, antes de tudo
anuncia a Boa Nova ao mundo com alegria e coragem!
Estamos vivendo momentos
difíceis em que muitas vezes o desejo de vingança e de ódio se torna uma
presença constante em nossos noticiários e situações de violência. É
evidente que a sociedade tem a missão de exercer a justiça diante das
situações de violação da lei, mas o nosso coração é chamado a trabalhar pela
conversão e pelo perdão. Acreditamos que o ser humano tem possibilidade de
mudar e se transformar. A violência só gera violência. O perdão e a paz nos
desarmam e nos colocam a caminho na unidade.
A paz
A paz desejada e almejada por
todos neste tempo pascal é anunciada abundantemente pelo Cristo
Ressuscitado. Hoje mesmo encontramo-la anunciada por três vezes no
Evangelho. Acreditamos que como Igreja somos esses anunciadores dessa Paz
que queremos testemunhar pela nossa vida.
A Campanha da Fraternidade
recordou-nos que diante de toda a sociedade a paz também é fruto da justiça.
Nessa união de dom de Deus, de celebração pascal e da justiça aplicada somos
as pessoas que diante da sociedade têm esperança e a testemunham com
alegria.
Abertura do Ano Catequético
Neste domingo da Misericórdia,
a Igreja no Brasil abre oficialmente o Ano Catequético Nacional com o tema:
"Catequese, caminho para o discipulado" que completa, sem dúvida, o desejo
de Aparecida, de formar verdadeiros discípulos de Jesus. Nossa meta é
constatar após o tempo da catequese inicial a Igreja possa contar com
cristãos adultos, verdadeiros discípulos missionários, anunciando e
testemunhando a Verdadeira Vida para o Mundo.
O lema deste ano também nos
questiona em nosso modo de ser: Nosso Coração arde quando Ele fala e explica
as Escrituras e parte o Pão. A nossa maneira de pregar e anunciar, além das
verdades necessárias, deve também fazer "arder" os corações das pessoas, de
tal forma que aprendam não apenas as idéias, mas principalmente vivam como
alegres cristãos. Minha saudação a todos que fazem acontecer neste ano esse
importante momento catequético aqui em nossa Arquidiocese.
Os primeiros passos
Meus primeiros passos serão ir
ao encontro de todos para conhecer e viver a vida do povo de Deus que aqui
se congrega, para ouvir suas histórias, tradições e sonhos, para
compartilhar seus sofrimentos e dores e buscar a esperança na Ressurreição
de Cristo.
Desejo conhecer não só a
história da cidade, mas também a vida e as experiências de cada um, de
maneira especial dos colaboradores mais próximos, que são os bispos
auxiliares, presbíteros e diáconos. Abram todos os seus corações para a
partilha da vida e para a comunhão de vida entre nós. Por experiência lhes
digo: vale a pena!
Irmãos e irmãs, filhos desta
grande Arquidiocese: o nosso primeiro trabalho será a elaboração do novo
Plano de Pastoral, que deverá retratar as necessidades de todos na missão de
pastorear essa grande cidade, que tem o direito de ver em nós sinais da
presença de Deus e suas consequências!
Convido a todos e a todas para
que nos irmanemos, e todos tragam seus dons e carismas, como muitos já têm
feito, na elaboração do direcionamento pastoral que agora iniciamos. Nesta
época de mudança da sociedade não podemos nos omitir diante dos desafios que
se nos apresentam a cada momento.
Com os olhos voltados para o
horizonte, aqui nesta bela Baía de Guanabara, vejo o "trigo" pronto para a
colheita e exorto a todos a uma vida de comunhão com Deus e com os irmãos
nessa grande epopéia que vivemos com a graça de Deus.
Final
Caríssimos Bispos, Presbíteros,
Diáconos, Religiosos, Religiosas, Consagrados, seminaristas, agentes de
pastoral, cristãos leigos e todas as pessoas de boa vontade!
Excelentíssimas autoridades
presentes ou representadas!
Caríssimo povo de Deus desta
querida Arquidiocese!
Desde a minha nomeação tantos
me falaram de vocês, do carinho, da fé, do entusiasmo! Agora eu venho me
unir a vocês para caminharmos juntos. Para continuarmos juntos, inspirados
por São Sebastião, a testemunhar a Fé diante das contradições do mundo de
hoje, e por Santana, que nos inspira a descobrirmos na fé e na fidelidade
dos antepassados as luzes para o nosso caminhar hoje.
Desde o momento de minha
nomeação eu coloquei espaço em meu coração para amá-los e caminhar com
vocês. Agora o declaro com muita alegria!
Que o Cristo Redentor, que de
braços abertos acolhe a todos em seu Santuário Arquidiocesano, nos faça
experimentar as bênçãos de Deus para todos os que aqui residem ou que por
aqui passam. Que o povo assim abençoado tenha a paz em suas fronteiras e
seja testemunho do Ressuscitado.
Com esses pensamentos eu me
apresento à Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro no seguimento e
anúncio de Jesus Cristo, unido ao Papa e aos irmãos Bispos, para iniciar
este caminho com esperança e ardor renovados.
Convido todos vocês para que
façam com que a medida do amor seja amar sem medida, seja amar por amar,
como nos lembra São Bernardo. O cristão, é cidadão de todos os países, de
todas as nações e cidadão do Reino, é também agora cidadão do Rio de
Janeiro! Como uma vez me disse o Sr. Núncio Apostólico aqui presente: o
Bispo não se pertence – ele é de todos!
Assim, hoje, mais que uma posse
que o Bispo toma de sua Arquidiocese, é o povo que toma posse de seu Bispo
que veio para servir a todos na alegria!
Eis-me aqui!
Rio de Janeiro, 19 de abril de
2009, segundo Domingo da Páscoa, domingo da Misericórdia, início do meu
ministério na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.
D. Orani João Tempesta, O.
Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro
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