NO FUNDAMENTO DE CÎTEAUX: A REGRA DE SÃO BENTO

 

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Em 1098, há novecentos anos, nascia no sul de Dijon, num lugar chamado Cîteaux, um mosteiro que foi nomeado desde as origens como o "Novo mosteiro". Habitualmente uma congregação religiosa traz fundamentalmente um sinal da personalidade que a fundou, por exemplo, Francisco para franciscanos, Domingos para os dominicanos, Inácio para os jesuítas... mas no caso de Cîteaux, ainda que possamos precisar três pessoas, Roberto de Molesme, Alberico e Estêvão Harding, a intuição que deu origem ao Novo Mosteiro, à sua iniciativa está sobretudo ligada a um texto, a Regra de S. Bento, e a um desejo, aquele de um retorno autêntico a esta Regra. A intuição que deu origem à grande aventura de Cîteaux encontra-se inteiramente contida num documento que datava já de muitos séculos. Seria útil, antes de tudo, dar alguma notícia a respeito deste venerável texto, como também seria útil precisar que Cîteaux nasceu num período em que de modo algum, o monaquismo estava decadente, pelo contrário: era o estilo de vida que se praticava que era tido como "infiel", não autêntico diante das intuições originais da Regra.

O autor da Regra

San BenedettoDigamos, imediatamente, que possuímos pouquíssimas notícias diretas sobre as origens desta Regra e sobre a personalidade do seu autor. Uma Regra monástica, sendo fundamentalmente um texto normativo, não nos surpreende se nela encontramos pouquíssimos elementos biográficos sobre o seu autor: é necessário buscar em outros lugares. A nossa principal e única fonte de informação encontra-se nos Diálogos, um escrito do Papa Gregório Magno e datado entre 593 e 594, ou seja, mais de quarenta anos depois da morte de S. Bento.

Encontramo-nos num momento trágico da história da Itália e da Igreja, quando o invasor longobardo está às portas de Roma. Nesta situação, preocupado em colocar as bases para uma nova ordem na sociedade, Gregório deseja apresentar aos fiéis um certo número de retratos de bispos, de monges ou de leigos que mostraram-se capazes de colocar em fuga as forças do mal, apoiando-se sobre uma fé total na "Onipotência de Deus". Um dentre estes personagens exemplares que nos são apresentados no segundo livro dos Diálogos é um certo Bento, que nasceu entre 480 e 490, na cidade de Núrsia, na Úmbria, de família abastada e que morreu em Montecassino, por volta de

547. Da família, sabemos que teve uma irmã, Escolástica, que também tornou-se monja. Enquanto Teodorico, rei dos ostrogodos, reinava sobre a Itália, Bento teria feito em Roma seus estudos permeados de cultura antiga, estudos que provocaram nele uma reação de rejeição e fizeram-no fugir para longe da perversão da cidade para servir a Deus em primeiro lugar na solidão e, em seguida, no recinto de diversos mosteiros. De fato, a biografia que Gregório nos oferece, nos faz percorrer um ciclo completo de evolução monástica. Partindo da comunidade clerical de Enfide para chegar ao cenobitismo, isto é, à vida comunitária exemplar de Montecassino, passando através de um intenso período de vida eremítica. Todo este caminho ensina Bento, antes de tudo, a dominar as paixões mais profundas que podem habitar no coração de um ser humano. Em seguida, o seu poder de realizar milagres é como que um sigilo de uma vida vivida sob a inspiração do Espírito Santo de Deus. Não pensemos que o caminho de Bento tenha se realizado de modo pacífico, fácil, sem provações: a sua experiência como guia da comunidade de Vicovaro resolve-se numa humilhação: os irmãos que o tinham chamado como guia não suportam o retorno à tradição monástica primitiva da qual Bento se faz arauto. Ele prefere, então, abandoná-los a si mesmos e, depois de um breve período de vida solitária, ele é encontrado como guia de uma nova comunidade no Vale do Aniane, de onde parte para chegar a Montecassino, em 529, conforme a tradição. Durante este último período cassinense, Bento revelou uma prodigiosa atividade: construção do mosteiro, formação dos monges, relações com os eremitas das vizinhanças, direção espiritual das monjas, redação de uma Regra, evangelização das populações locais ainda pagãs, relação com os bispos e príncipes da época. Uma vida vivida a um nível tão profundo e elevado e marcada por milagres não podia terminar a não ser de modo ilustre e, segundo S. Gregório, a morte do nosso santo é uma verdadeira glória.

A Regra do Mestre

Não é por acaso que Gregório, uma só vez, sublinhe que Bento tenha escrito uma Regra "notável pelo sentido da medida e pela discrição do seu estilo". Como explicar, então, o modo como nasceu esta Regra, como explicar também que S. Gregório fale dela uma só vez nos Diálogos? Este problema foi muito discutido nos últimos cinqüenta anos, mas hoje as conclusões das pesquisas guiadas por um estudioso beneditino, D. Adalbert De Vogüè, são geralmente compartilhadas por todos. Conforme este pesquisador, S. Bento teria composto a sua Regra servindo-se de um documento preexistente, conhecido como a Regra do Mestre, documento anônimo e muito desenvolvido. Se é assim, compreende-se muito bem o silêncio de S. Gregório, a respeito de S. Bento como autor de uma regra monástica, pois, na realidade, não fez outra coisa senão adaptar e abreviar uma Regra já existente, e isso num período onde nasciam tantos textos destinados a codificar a vida monástica. Sem dúvida, a intuição fundamental de S. Bento e a sua originalidade foi aquela de compreender que era necessário, como propunha a "Regra do Mestre", que seguia a tradição monástica antiga, não de preparar os monges para a vida solitária - somente uma elite era capaz de vivê-la - mas de definir e estruturar a vida comunitária, a vida comum.

Apesar de ter conservado grande estima pela vida eremítica e a tradição antiga do monaquismo, Bento insiste, menos que os seus predecessores, sobre as exigências ascéticas. Por outro lado, sublinhando a importância da autonomia e da auto-suficiência dos mosteiros, valorizando o papel do trabalho manual, Bento coloca as condições que preparam os mosteiros para sobreviverem durante os períodos de carestia alimentar ou de recessão cultural que serão conseqüências das invasões dos bárbaros que acontecerão até o estabelecimento do Império Carolíngeo.

Assim, os mosteiros beneditinos se tornarão as colunas do cristianismo ocidental.

O que deseja S. Bento é "dar a todos a possibilidade da vida monástica" e é por isso que faz do mosteiro uma "escola do serviço do Senhor", onde se observa em primeiro lugar o silêncio, condição para a escuta da "Palavra de Deus", na qual se pratica a obediência e a humildade numa vida marcada pelo trabalho, a oração e a "lectio divina", a leitura meditada da Palavra de Deus."

A carta do monaquismo ocidental

Se esta "pequena regra para iniciantes" tornou-se, na prática, a carta do monaquismo ocidental, isto se deve ao seu conteúdo, mais orientado para a apresentação de um itinerário espiritual e não para a definição de um código jurídico. É por causa da sua discrição, do seu sentido de medida e equilíbrio, que esta pequena Regra soube também dosar o poder dado ao abade - o qual é eleito pela comunidade - insistindo na importância da consulta aos anciãos ou do capítulo conventual no caso de decisões importantes; e é ainda pelo motivo que deixa a cada comunidade uma margem de interpretação não descuidável e, enfim, pelos apoios externos que recebeu.

No século VII a Regra é conhecida na Gália e na Inglaterra graças à intervenção dos monges enviados por Gregório Magno para converter a região. No século VIII chega à Alemanha, onde S. Bonifácio a adota na Abadia de Fulda que ele tinha fundado e na qual, em 742, o primeiro sínodo dos bispos germânicos prescreveu o uso para todo o país. O artífice principal da sua difusão foi Bento de Aniane (750-821), por meio do qual foi adotada no mosteiro de Languedoc, pois ele estava persuadido que esta fosse a mais apta à mentalidade ocidental. Esta reforma recebeu adesão do rei da Aquitânia, Luís, o piedoso, filho de Carlos Magno, que estendeu o uso da Regra a todo o seu reino e quando se tornou imperador a todo o império, após decisão do Concílio de Aix-la-Chapelle, em 817. O projeto era o de reagrupar todos os mosteiros beneditinos numa Ordem única, da qual Bento de Aniane seria o abade geral. As vicissitudes da história impediram esta tentativa que foi retomada, mais tarde, sob diversas formas e deu lugar ao nascimento de grandes agrupamentos monásticos como aquele de Cluny. A decisão de impor a todos os mosteiros esta Regra favoreceu um excepcional crescimento da vida monástica nos séculos X e XI . Esta renovação acontece com uma perspectiva unitária e unificadora, sublinhando a ligação entre os mosteiros e insistindo sobre a uniformidade das observâncias. Uma outra característica destes agrupamentos de mosteiros assim constituídos é aquela de ultrapassar largamente as fronteiras das próprias regiões de origem.

O final do século XI, momento da fundação de Cîteaux, é um período de "flutuações e renovamentos". A cristandade latina está em plena expansão para o norte da Europa (Escandinávia) e para o leste (Boêmia, Morávia, Polônia), para o sul (reconquista da Península Ibérica e da Sicília). O monaquismo beneditino conhece um florescimento extraordinário com a prioridade da Congregação de Cluny, como também de outras congregações menos célebres, sem contar numerosos mosteiros mais ou menos isolados e numerosos agrupamentos eremíticos. Com a exceção bem conhecida dos cartuxos, todos estes grupos fundamentam sua vida na "Regra de S. Bento".

 

(Traduzido do original em italiano:
 "Ordine Cistercense - Nono Centenario dalla Fondazione, 1098-1998
 por D. Abade Edmilson Amador Caetano, O. Cist.)

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