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Organização
do trabalho beneficiamento
Desejando seguir na íntegra a Regra de São
Bento, os monges fundadores de Cister estavam decididos a viver do trabalho de suas
próprias mãos. Este propósito foi também necessário devido à época em que viviam:
havia então, e continuava a crescer, a população rural, de modo que os melhores
terrenos já se encontravam ocupados e fez-se necessário contentar-se com terras ainda
não cultivadas, isto é, que precisavam de beneficiamento. Tais terras estavam
localizadas geralmente em lugares isolados e ermos, como os cistercienses desejavam, mas
que necessitavam de um trabalho árduo antes de serem utilizadas para a agricultura.
Também os terrenos que os nobres doavam para uma fundação eram na maioria das vezes
constituídos de bosques, pântanos, ou de lugares que por diversos motivos não foram
deixados cultivados.
A economia geral da época era caracterizada por
um período de transição: a economia curtense, na qual todos os produtos agrícolas e
artesanais eram produzidos localmente e substancialmente autárquica, estava no fim, e se
desenvolvia uma economia totalmente totalmente diversa, caracterizada pelo comércio e
pelo início da atividade industrial; termina o escambo e surgem os bancos e o uso da
moeda.
Os Cistercienses se inseriram de modo feliz nesta
fase de transição: o sucesso deles chega a ser espetacular, e é devido a três fatores
principais: em primeiro lugar a extensão do terreno. Para compensar a qualidade
decadente, os nobres doavam grandes quantidades de terras; após executar os
beneficiamentos, por exemplo, em terrenos pantanosos, o rendimento era muito grande, e o
excedente podia ser vendido. O segundo fator foi o ingresso no mosteiro de um grande
número de irmãos conversos; e o terceiro, um planejamento racional e uma administração
eficiente. Deve-se levar em conta outra consideração: o fato de renunciarem o dízimo e
rendas de todo gênero, comuns naquele tempo, tornara indispensável o trabalho manual
mas, em compensação, também trazia uma certa vantagem: havendo renunciado às rendas
feudais e eclesiásticas, parecia justo isentá-los do pagamento de impostos,
contribuições de diversas espécies e dízimos, que pesavam sobremaneira na economia
daquele tempo.
As granjas
Vejamos de modo particular o terceiro fator acima
nomeado. O sistema das grandes propriedades de terra, então superado e em decadência,
subdividia as grandes extensões feudais em unidades isoladas e independentes, onde os
servos, deixados à própria sorte, não tinham como melhorar os sistemas de cultivo e
quase não tinham o interesse, sendo explorados por inúmeros impostos e obrigações (a
corvéia, por exemplo). E faltava por completa um planejamento e direcionamento geral. Os
Cistercienses por sua vez, trabalhavam de modo autônomo e cada abadia podia utilizar do
melhor modo as características dos diversos terrenos. O melhor instrumento foi a
criação das "granjas", uma espécie de destinação monástica para se
trabalhar os terrenos distantes do mosteiro, onde os irmãos conversos habitavam no
período dos grandes trabalhos agrícolas e que uniam as vantagens do planejamento central
com a autonomia local.
Os trabalhos
Além da agricultura, haviam outras atividades
econômicas: produção e comércio de lã, sobretudo na Inglaterra, onde poucos criadores
tinham a capacidade de competir com a lã cisterciense; produção e comércio de vinho de
alta qualidade: os melhores terrenos vinícolas da Borgonha eram cistercienses, inclusive
a vinha de Clos-Vougeot, que alcançaria fama mundial; ótimos também na região do Reno
e da Mosella (Cister abastecia com regularidade a corte papal de Avignon). Outra atividade
era o cultivo de peixes, justificada pelo fato de que os monges não comiam carne;
produziam também para consumo próprio, mas com freqüência também em escala comercial,
iguarias provenientes da abundância das águas das zonas pantaneiras: carpas, trutas e
lúcios entre os peixes principais, além das fundições e forjas para o trabalho do
ferro extraído.
Os irmãos conversos
Para os monges de Cister, empenhados na liturgia
e na Lectio Divina, no estudo e na cópia de códices, não restava muito tempo
para se dedicarem aos trabalhos agrícolas e aos outros trabalhos indispensáveis para o
funcionamento do mosteiro (cozinha, lavanderia, limpeza, artesanato para a fabricação e
reparação dos adereços agrícolas, etc.), pois a agricultura, sem as máquinas de hoje,
não só era muito onerosa, mas haviam também os trabalhos pesados de beneficiamento da
novas terras para plantio, pois o número de monges crescia. Querendo de qualquer maneira
viver exclusivamente do trabalho das próprias mãos e não de rendas como os outros
mosteiros da época, encontrou-se uma forma de compromisso, já iniciado na Itália,
estabelecendo a acolhida dos "leigos de barba", isto é, os conversos, e de
tratá-los por toda a vida como tais, sem os direitos dos monges coristas. Na prática
eram camponeses ou gente comum sem instrução, isto é, analfabetos, que tinham uma
participação reduzida na Liturgia e dedicavam um tempo maior ao trabalho. Eram tratados
como monges, exceto pelo fato de que não participavam da eleição do abade e não podiam
receber encargos importantes. Dava-se a eles uma instrução religiosa, deviam observar o
silêncio monástico, mas os jejuns eram mais leves e o repouso noturno maior.
Sem dúvida eram tratados melhor do que os
camponeses e os servos dependentes dos senhores feudais, e eram protegidos da pobreza, da
carestia e da insegurança. Estes motivos materiais, aliados aos religiosos, explicam o
grande sucesso desta instituição e o grande número de irmãos conversos, até o século
XIII, quando a mudança das condições econômicas e sociais favoreceram o
desenvolvimento das novas Ordens Mendicantes, a saber, os Franciscanos e Dominicanos.
Depois disso algumas abadias desenvolveram
também indústrias: como os moinhos, primeiro para uso interno, mas depois para todo o
território ao redor, e adicionaram-se pedreiras, minas de carvão, de ferro, de chumbo e
sobretudo de sal...
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